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O peso e a leveza – Cidade sem fim, por Josiane Orvatich

Um aviso nos alerta na primeira obra exposta e em algumas mais: “Cuidado, equilíbrio delicado”.




Não é apenas um recado técnico para que o espectador não se debruce excessivamente sobre os objetos artísticos, pois as obras estão empilhadas em camadas, sem nenhum tipo de colagem, em alguns casos. É uma consideração poética. É uma das leituras possíveis para as esculturas em cerâmica de Lígia Borba, em cartaz na Galeria Ybakatu, até 1º de novembro, e parte da programação da Bienal Internacional de Curitiba.





A aparência pesada das peças se contrapõe à ideia de leveza que a montagem em equilíbrio quer sugerir. Numa delas, uma cobra e uma maçã se equilibram em um cipó que, por sua vez, se equilibra em uma caixa retangular alta. Em outra, três maçãs se equilibram em uma espécie de balança montada sobre uma base. As camadas sobrepostas indicam, além da ideia do próprio equilíbrio, a de seu oposto: a possibilidade de desmoronamento.

O título da exposição é “Maçã e pera”, porém uma das obras brinca e nos assusta com a proposição da figura humana: uma cabeça montada sobre uma base, debaixo da qual saem nove pés. A mim, lembrou Medusa, o monstro mitológico que nos transforma em pedra, tal como as que estão ali expostas, em cerâmica trabalhada. Por um lado, essa obra parece deslocada, uma exceção da temática, mas pode estar unida pela técnica utilizada pela artista ou ainda ser um resquício de fases anteriores – quando trabalhou com representações humanas – que ainda permanecem em articulação, como um resto temático relevante e infiltrado.
 

 


Numa das paredes, maçãs e peras fixadas sobre textos parecem que vão cair e projetam dois tipos de sombras: artificiais, produzidas pela artista, e naturais, efeitos da luz da exposição. Anotei pedaços de frases circundadas pelas sombras artificiais como forma de me aproximar de uma interpretação das obras: “desejos mais inconfessáveis; chuva rápida se evapora; sem nenhum esforço, lentidão; pedaços da realidade”.
Essas ideias me remeteram mais uma vez à dicotomia do peso e da leveza, nas oposições do que evapora ou demora, do que pesa ou persiste, do desejo ou da realidade. Somente uma das peças possui título, a obra “Duas frutas e oito quimeras”, a nos convidar ao espaço da imaginação e da leitura singular dos sentidos, para além das peras e das maçãs.



Vem ver:

Exposição Maçã e pera, individual de Lígia Borba
Local: Galeria Ybakatu
Data: Até 1º de novembro de 2017
Horários: Segunda a sexta-feira, das 10 às 12h30 e das 13h30 às 17h

Fotos: Fabiane Queiroz

Fotos das obras: Divulgação

Josiane Orvatich. Escritora e
Editora do site Tempo de Morangos. 


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