O Homem Cordial retrata o clima de violência no país e destaca o racismo e o tribunal das redes sociais – FILMES, por Rudney Flores

 em Colunistas, Cultura, Rudney Flores

O ambiente hostil da redes sociais, o racismo e a violência policial são temas de O Homem Cordial, novo longa-metragem do diretor Iberê Camargo, do ótimo O Último Cine Drive-In (2015), que estreia nacionalmente nesta semana, incluindo Curitiba, no Cine Passeio.

O filme tem como personagem central Aurélio, vivido por Paulo Miklos, um músico que fez sucesso nos anos 1980 e 1990 com sua banda de rock Instinto Radical, e que está retornando aos palcos, mas que logo no primeiro show é hostilizada pelo público. O motivo: Aurélio está em um vídeo que viralizou nas redes sociais – ele foi filmado quando tentou ajudar uma criança de 11 anos acusada de roubar um celular; um policial envolvido na confusão acaba sendo morto ao perseguir o menino, e o roqueiro é acusado de ser defensor de bandido assassino pelo tribunal das redes sociais, que acusa, julga e condena sem saber todas as informações de um caso.

A produção de curta duração – apenas 83 minutos – acompanha o protagonista durante uma noite por São Paulo, em que ele tenta se esquivar das acusações, além de achar o menino acusado e que está desaparecido com a ajuda de Béstia, um antigo parceiro de banda vivido pelo rapper Thaíde, os jovens jornalistas Helena (Dandara de Morais) e Rudah (Thalles Cabral), além de Marina (Thamirys O’Hanna), irmã do garoto.

Apesar de ter sido finalizado em 2019 e lançado no Festival de Gramado do mesmo ano, o longa só chega agora ao público dos cinemas. Mas, mesmo com a demora, os temas tratados pelo roteiro de Camargo – realizado em parceria com o uruguaio Pablo Stoll, diretor do também ótimo Whisky (2004) – seguem mais do que atuais, com a violência se tornando ainda mais acirrada no país, seja nas redes sociais com suas ofensas e linchamentos virtuais, ou nas ruas, com parte da polícia continuando a investir contra a população brasileira preta e mais pobre, além do clima de total divisão entre a população por questões políticas.

O título do filme é uma referência a um dos capítulos da importante obra Raízes, do historiador Sérgio Buarque de Holanda (pai de Chico Buarque), e que erroneamente é interpretado como descrição do brasileiro amável e gentil, mas, ao contrário, refere-se à sua passionalidade, agindo sempre com um afeto (cordis em latim significa coração) que na realidade mascara relações de conflito e violência na sociedade do Brasil. Ou seja, a proposta dos autores é uma provocação e um convite ao debate crítico sobre o tema.

Camargo impõe um clima de tensão na história através da câmera na mão, quase sempre posicionada no rosto dos personagens, oprimindo-os muitas vezes como a violência faz. Miklos – membro original do grupo de rock Titãs, que celebra 40 anos de estrada com uma turnê nacional este ano –, foi revelado como ator no filme O Invasor, de Beto Brant, em 2001, e desde então se tornou um dos melhores intérpretes do cinema nacional, o que é confirmado em O Homem Cordial.

Apesar de falhas de roteiro no desenvolvimento de personagens coadjuvantes e em algumas situações inverossímeis, o filme se destaca por registrar com precisão mais uma fase turbulenta no país que insiste em perdurar. Cotação: Ótimo.

Trailer de O Homem Cordial:

 

Crédito da imagem: Quartinho Direções Artísticas

 

Rudney Flores é jornalista formado pela PUCPR, assessor de imprensa e crítico de cinema, com resenhas publicadas nos jornais Gazeta do Povo e Jornal do Brasil.

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