A Ansiedade e a Criatividade – COLUNA RECEITA DE ESCRITA, por Cláudia Moreira

 em Cláudia Moreira, Colunistas

Você já teve medo de escrever algo ou parou no meio da escrita simplesmente porque deu aquele famoso branco? As ideias não aparecem e você não consegue estruturar seu texto?

Quando a ansiedade começa a prejudicar nossa criatividade? Provavelmente, quando deixamos de viver o presente. O ansioso tenta sempre antecipar o futuro. O que será que vai acontecer? Ele se esquece de saborear o agora, deixando o espacinho da criatividade perdido no tempo. Como diz Jung, “a ansiedade nada mais é do que a tensão entre o agora e o depois”. E essa tensão, quando levada ao extremo, vira doença: insônia, sudorese, perturbações gástricas, enxaquecas e até depressão e síndrome do pânico. Como achar que o nosso poder criativo ficará intacto?

A ansiedade é, segundo o psiquiatra Geraldo José Ballone, um sentimento de apreensão, uma sensação de que algo está para acontecer, representa um contínuo estado de alerta e uma constante pressa em terminar as coisas para não deixar nada para trás, além dos concorrentes. E isso é normal. Essa ansiedade ajudou na nossa sobrevivência. Mas tudo que é demais é demais. Sendo assim, o nível da ansiedade é que deve ser controlado para que ela não vire algo doentio.

O ansioso não gosta de ser pego de surpresa e, por isso, é um pessimista de carteirinha. Se ele falar isso, eu faço desse jeito. Se fizer isso, eu digo aquilo. E assim, nosso amigo ansioso antecipa os sofrimentos e começa um processo de autodestruição. A Organização Mundial de Saúde estima, dados de 2019, que 18,6 milhões de brasileiros (9,3% da população) convivem com o transtorno, fazendo do Brasil o país mais ansioso do mundo. É um mal do nosso século! E esta vida agitada e tecnológica ainda ajuda a criar um clima propício para toda essa inquietação.

E quais as armas para driblar o excesso de ansiedade? O psiquiatra e escritor Augusto Cury, em entrevista ao jornal O Tempo, de 16 de junho de 2016, dá a seguinte dica: “Gerenciar a ansiedade doentia passa por uma série de ferramentas, como aprender a se colocar mais no lugar do outro, contemplar o belo, pensar antes de agir, desacelerar o pensamento, criticar cada ideia perturbadora”.

Além das sugestões preciosas de Cury, há um caminho que não pode ser descartado. Os trabalhos manuais ajudam a controlar essa ansiedade. Oba! Isso significa que estamos na estrada certa: escrita! Quando nossas mãos e nossas mentes se ocupam de criar e colocar as ideias em ordem, o foco passa a ser o agora. Entramos em estado de flow, de completa absorção do momento em que estamos. Esquecemos de tudo e de todos. É como se a vida parasse para nos observar na criação. Concentrados, exercemos essa capacidade de inventar, nos entregando ao ofício de corpo e alma. Claro que depois vem aquela ansiedade normal: será que vou conseguir vender minha obra amanhã? Será que vão gostar? Calma, vamos treinar dizer isso: um dia de cada vez!

Texto retirado do livro Receita de Escrita, da Editora Ponto Vital. À venda no link: https://pag.ae/7XcqSZSnH

 

Ilustração: @igor.baldez

 

Cláudia Moreira é mestranda em Escrita Criativa (Uniandrade/PR), formada em Letras e Jornalismo (Uniceub- DF), com especializações em Revisão e Produção Textual (FAE-PR), Desenvolvimento Sustentável (UNB-DF) e Master em Jornalismo (IICS-SP). Tem vários livros publicados, entre eles, Receita de Escrita. É sócia-proprietária da Editora Ponto Vital (PR) e professora de Escrita do Solar do Rosário em Curitiba.

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