A Placa – COLUNA RECEITA DE ESCRITA, por Cláudia Moreira

 em Cláudia Moreira, Colunistas, Cultura

A placa, meio caída, balançava na frente da casa. O vento deve ter arrancado uma das suas sustentações, mas isso não impediu que eu entrasse. Ali, no meio da sala, não vi beleza. Os móveis empoeirados não lembravam em nada as conversas em torno da mesa de jantar. Onde estariam as risadas? Parei diante de um porta-retrato. Caiu uma lágrima. Cadê todo mundo? Meus pés me levaram para a cozinha. O cheiro gostoso do bolo saindo do forno não existia. A memória relembrava, mas a realidade não me mostrava a fumacinha no corte das fatias da minha sobremesa preferida e nem os gritos dos irmãos pelo primeiro pedaço. Sentei no chão sujo e coloquei a cabeça entre as pernas. O sabor da infância me deixava louca. Conseguia refazer as histórias vividas, mas não havia nenhuma conexão com aquelas coisas mortas. Mortas! Nem sei quanto tempo levei para me levantar e continuar a caminhada.

Já no quarto do casal, senti o perfume da mamãe: “Eau de cologne tradition 1902”. Na verdade, era uma água de colônia francesa que eu vivia reclamando por ser tão forte. Afinal, para quem usava alfazema, qualquer cheiro perturbava. Também notei os livros na mesinha de cabeceira. Papai guardava o preferido: Cartas da Tribo. Nós, a família, escrevemos cartas para ele e publicamos as histórias. Foi memorável a entrega, ao redor da mesa, como antes os índios faziam em torno da fogueira. Nosso cacique, como o chamávamos, chorou de emoção. Meus dedos passaram pelas páginas com uma doçura incrível. Acho que eu queria reter cada palavra, cada verdade ali contida.

O passado parecia presente. A minha mente não parava de rever e de revisitar os sorrisos, a comida, as brincadeiras. Estaria eu perturbada? Abri as janelas para não sufocar. Lá estava o pé de abiu, o tanque das tartarugas e até a colmeia que, outrora, me causara dor com as ferradas das abelhas. Os cachorros já não estavam ali, nem o jabuti. Aliás, não ouvi nem os passarinhos e nem o sussurrar da brisa. Tudo estava parado, estático. Só eu respirava. Ainda.

Entrei no meu quarto. Tudo arrumado, como sempre, embora cheio de pó. A vitrola vermelha e os vinis com histórias infantis ainda estavam na estante de madeira, assim como as bonecas. Quantas bonecas! O tapete vermelho estava puído. As traças não deram refresco! Roeram a vida sem dó, a minha vida. Ou será que foi o tempo que fez isso comigo? Quem foi o culpado por tirar tudo de mim?

Fechei os olhos e me enxerguei criança, me arrumando para a escola. Mamãe fazendo uma Maria Chiquinha (uma espécie de rabo de cavalo nos dois lados da cabeça) de arrancar o cérebro; minha irmã, atrasada, tomando banho; meu irmão se pendurando na televisão e, claro, levando tombos e chorando e gritando. Meu pai no banheiro, minha outra irmã, mais velha, ajudando no café ou, quem sabe, pegando as coisas gostosas primeiro. Eram assim nossas manhãs: atrapalhadas, corridas, vivas, felizes.

Uma movimentação lá fora me chamou a atenção. Fui lá. A placa se balançava como em um filme de terror. Olhei mais atentamente. Estava escrito: aqui mora a felicidade. Gritei, gritei muito e aí, um abraço perfumado e iluminado me tirou do tormento e me jogou em outra dimensão. Era a mamãe preocupada comigo. Filha, você está bem?

 

Ilustração: @igor.baldez

 

Cláudia Moreira é mestranda em Escrita Criativa (Uniandrade/PR), formada em Letras e Jornalismo (Uniceub- DF), com especializações em Revisão e Produção Textual (FAE-PR), Desenvolvimento Sustentável (UNB-DF) e Master em Jornalismo (IICS-SP). Tem vários livros publicados, entre eles, Receita de Escrita. É sócia-proprietária da Editora Ponto Vital (PR) e professora de Escrita do Solar do Rosário em Curitiba.

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Comentários
  • Alessandra Pereira Louzada
    Responder

    Simplesmente amei! Me identifiquei com as memórias da infância… sofri muito com as tais maria-chiquinhas rsrs. O risco perfeito no meio da cabeça e aquele pente arranhando e desembaraçando os nós do meu cabelo… afff ninguém merece rsrsrs.

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