Arquiteta da Escrita – COLUNA RECEITA DE ESCRITA, por Cláudia Moreira

 em Cláudia Moreira, Colunistas, Cultura

Você já pensou que para construir uma casa é necessário um projeto, um planejamento? E que o seu texto também pode ser arquitetado? Nunca havia me dado conta disso até que um professor me fez ver as estruturas por detrás de uma obra literária. Ele me apresentou o russo Anton Tchékhov que escreve contos de uma humanidade incrível. Consegui enxergar algo que não percebera até então. Vislumbrei todo um trabalho de arquiteto, com o estudo dos pormenores, do título até o ponto final. Descobri que um texto pode ser “erguido” por meio de uma observação minuciosa de como colocar a palavra, suas frases, parágrafos, pontuação para que, juntos, tenham o efeito desejado no leitor.

Estudei Tchékhov e analisei a estrutura de seus contos. Vi, por exemplo, que a maioria deles acaba de uma forma serena, “pianíssima”, como ele mesmo ensina. Não é algo que finaliza como um nocaute, na comparação do escritor argentino Julio Cortázar que vai na “onda” do nosso mestre Edgar Allan Poe, sempre terminando no clímax da história. A tal da surpresa na última frase. Você já tinha notado esses finais diferentes?

Quando imaginamos um texto, devemos também pensar não só na palavra certa, mas no tamanho das frases. Quero escrever que meu personagem está com pressa. Você acha que as frases deverão ser curtas ou longas? E o narrador, se eu quiser mostrar uma intimidade maior com o leitor, ele deverá estar em primeira ou em terceira pessoa? Devo escrever um fluxo de consciência “assim ou assado” para meu protagonista? A quem darei voz? Como passarei verdade? A pontuação, como precisa ser?

A vida toda, eu escrevi sem pensar na estrutura do texto e tive dificuldade em fazer um esboço, explicando o porquê de cada escolha: narrador, parágrafos, nomes dos personagens… O exercício foi-me penoso, mas gostei do aprendizado. Será que os escritores fazem tudo de caso pensado? Tem uma razão atrás das ideias? Nada é por acaso? Eles traçam o projeto e vão com ele até o fim ou conseguem fugir do script inicial?

Ao “bolar” meu projeto de conto proposto pelo professor, passei uns três dias pensando na arquitetura do texto. Coloquei no papel e depois elaborei a história. Confesso que fugi um pouco do que foi desenhado no esboço. Acredito que os personagens tomam vida, chegando ao ponto que não consigo mais interferir. A experiência de ser uma estagiária de arquiteta do meu próprio texto foi instigante, nova, desafiadora. Ela me deu um novo sabor, um prazer de escrever diferente. A partir de agora, vou prestar atenção nas colunas, na qualidade do cimento, nos tijolos, enfim, no interior da obra literária. Afinal, estou estudando para ser uma boa arquiteta. Arquiteta da escrita.

 

Ilustração: @igor.baldez

 

Cláudia Moreira é mestranda em Escrita Criativa (Uniandrade/PR), formada em Letras e Jornalismo (Uniceub- DF), com especializações em Revisão e Produção Textual (FAE-PR), Desenvolvimento Sustentável (UNB-DF) e Master em Jornalismo (IICS-SP). Tem vários livros publicados, entre eles, Receita de Escrita. É sócia-proprietária da Editora Ponto Vital (PR) e professora de Escrita do Solar do Rosário em Curitiba.

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