Bela Vingança discute tema que não pode mais ser ignorado – FILMES, por Rudney Flores

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Bela Vingança é mais um dos filmes do Oscar que chega com atraso a Curitiba, que teve um grande período de cinemas fechados neste ano, só retomando uma programação mais próxima do normal no final de julho. Já disponível em streaming, a produção que tem lançamento apenas no Cine Passeio, foi indicada a cinco Oscars, incluindo melhor filme, atriz para Carey Mulligan, direção para Emerald Fennel, edição e roteiro original, também para Fennel – venceu apenas esta última.

Em sua estreia na direção de cinema, Emerald – atriz da série The Crown (vive Camille Park-Bowles, amante do príncipe Charles, na quarta temporada) e roteirista da badalada série Killing Eve – aborda um tema relevante e, infelizmente, sempre muito atual, o estupro feminino e a culpabilização da vítima.

A protagonista Cassandra (Mulligan) decide ter como missão de vida desmascarar as atitudes predatórias dos homens. Ela frequenta bares e veste roupas sensuais, fingindo-se de bêbada. Muitos rapazes se dispõe a ajudá-la, levando-a para casa e o comportamento é sempre igual – mesmo os mais gentis, acabam tentando se aproveitar dela, até quando finge desmaiar. Nesse momento, a moça os confronta e expõe todas as suas atitudes.

As atitudes de Cassie são todas relacionadas à culpa que carrega por não estar presente em uma situação que aconteceu com Nina, sua melhor amiga, estuprada em uma festa da universidade de medicina que cursavam – o agressor não foi nem indiciado pelo crime, protegido pela própria instituição que não quis investigá-lo, pois deu benefício da dúvida ao rapaz, que negou o crime; para completar, Nina estava bêbada e, na visão da reitora e outros estudantes, vulnerável por sua própria culpa – ainda hoje, os relatos de casos semelhantes são muito comuns na vida universitária norte-americana. Melhores alunas do curso, as amigas abandonam a universidade e Cassie volta a morar com os pais e vai trabalhar como atendente de um café.

Passaram-se sete anos do ocorrido com Nina, e a aparição de Ryan (Bo Burnham, de Doentes de Amor), médico e ex-companheiro de universidade, é o gatilho para Cassie decidir fazer a vingança já revelada no título nacional do filme – o original é melhor e traz uma ironia, Promising Young Woman, algo como jovem e promissora mulher. Ela vai atrás de todos os que colaboraram para seu declínio e o de Nina.

No início, a diretora/roteirista adota um humor leve para tratar dos patéticos avanços masculinos e a ridícula posição de fragilidade de alguns quando são desmascarados. As cores fortes e a iluminação clara se sobressaem e há uma trilha sonora pulsante, mas tom vai pesando e o desconforto aumenta à medida que as vão se revelando as atitudes que muitas pessoas tomam para tentar ignorar ou normatizar uma situação que nunca poderia ser deixada de lado.

Aparece uma possibilidade de leve respiro para Cassie – Mulligan está sensacional e merecidamente recebeu uma nova indicação ao Oscar depois de mais de dez anos (a primeira foi em Educação, de 2009) – mas o roteiro bem sacado de Fennel não dá brechas para uma normatização da trágica situação vivida pelas personagens ou por muitas mulheres da vida real, dentro do ainda dominante machismo do mundo atual, onde casos de assédio e feminicídio são revelados em profusão todos os dias. Um tema que não pode mais continuar sendo ignorado. Cotação: Ótimo.

Trailer de Bela Vingança:

 

Noir em futuro distópico

Uma das roteiristas e produtoras da aclamada série Westworld, da HBO, Lisa Joy estreia na direção de cinema com Caminhos da Memória, um dos principais lançamentos da programação desta semana na capital paranaense. Roteirizado pela própria cineasta, o filme é mais um a apresentar um futuro distópico, destacando a cidade de Miami (Estados Unidos) invadida pelas águas, uma nova Veneza (Itália) depois dos efeitos do aquecimento do planeta.

Na cidade de vida praticamente noturna – pois a temperatura durante o dia é muito alta – vive Nick Bannister (Hugh Jackman, o eterno Wolverine), um colaborador da polícia que comanda um equipamento capaz de resgatar a memória das pessoas – sua ajudante nas sessões é Watts (Thandiwe Newton, de Westworld).

Inicialmente utilizado para investigar suspeitos de crimes, a máquina acaba se transformando em escape para aqueles que não suportam viver em um mundo catastrófico, preferindo passar boa parte do seu tempo lembrando de épocas mais felizes.

A rotina de Bannister e Watts, ambos ex-combatentes de guerra, é alterada com o aparecimento de Mae (Rebecca Ferguson, dos recentes filmes da franquia Missão: Impossível), uma cantora de cabaré que busca a ajuda do aparelho captador de memórias para algo mais trivial, achar suas chaves perdidas. Nick acaba vendo um pouco da vida da artista ao verificar suas lembranças e se apaixona por ela.

A dupla vive um intenso romance até Mae sumir sem explicação, tornando Nick uma pessoa amargurada e obsessiva pela imagem da mulher que ama. Ele não sai do próprio equipamento de sonhos, revivendo incessantemente seus momentos com ela. Nick tenta a todo custo descobrir o que aconteceu a Mae e acaba se envolvendo em uma trama criminal.

Apesar do ar futurista, com elementos que remetem a filmes como Waterworld – O Segredo das Águas e Minority Report – A Nova Lei, Caminhos da Memória tem a estrutura de um filme noir clássico, estilo que teve seu auge nos anos 1940 e 1950, e que vez ou outra é rememorado por novos diretores. Como em produções do gênero, há um homem “durão”, que se envolve com uma bela mulher que guarda diversos segredos; ele enfrenta pessoas poderosas e inescrupulosas em uma história com várias descobertas e reviravoltas. Ainda há a narração em off do protagonista, para certificar que tudo seja bem explicado.

Lisa Joy segue a cartilha à risca e não ousa em nenhum momento, não traz nada de novo para o gênero. Apesar dos bons efeitos visuais da Miami inundada, o filme vai se arrastando até a conclusão e tem alguns momentos entediantes, principalmente nas contínuas sequências de insanidade do protagonista de Jackman. Cotação: Regular.

Trailer de Caminhos da Memória:

 

Mundo virtual

Filmes baseados em videogames nunca deram certo no cinema, de Street Fighter e Mario Bros. aos mais recentes Assassin’s Creed e Sonic. Free Guy – Assumindo o Controle, novo filme estrelado por Ryan Reynolds – ator que mudou seu patamar após o grande sucesso da franquia Deadpool –, também é ambientado no mundo dos jogos, mas apresenta uma história original que vem recebendo elogios na crítica internacional.

A produção dirigida por Shawn Levy (da franquia Uma Noite no Museu), uma das principais estreias da semana, traz a história de Guy (Reynolds), um caixa de banco que descobre que na verdade é personagem de um jogo chamado Free City. Ao lado de Millie (Jodie Comer, sucesso na série Killing Eve), o avatar de uma das criadoras do videogame, ele tem a missão de salvar a todos que vivem nesse mundo virtual.

Trailer de Free Guy – Assumindo o Controle:

 

Asiáticos

Responsável por filmes de grande impacto visual, como Herói (2002) e O Clã das Adagas Voadoras (2004), o diretor chinês Zhang Yimou apresenta mais uma produção histórica relativa ao seu país natal. Shadow é ambientado no período dos Três Reinos na China (no século 3) e destaca diversas disputas pelo poder em uma terra muito dividida. O filme tem lançamento apenas no Espaço Itaú.

Trailer de Shadow:

A relação de amizade entre cães e seus donos sempre emocionam nas telas e não deve ser diferente em Eternos Companheiros, coprodução da China e Hong Kong comandada pelo diretor Law Wing-Cheong. Na história, o doce labrador Little Q é enviado para ser o cão-guia de um renomado chef, deficiente visual. De início, o amargurado cozinheiro recusa o cachorro, afastando-o sempre que pode, mas o animal é insistente e acaba conquistando o homem com sua lealdade. A produção é outra com estreia apenas no Espaço Itaú.

Trailer de Eternos Companheiros:

 

Outras estreias

Depois de Alice Júnior, filme lançado em 2019 pelo diretor paranaense Gil Baroni, a transexualidade de adolescentes também é tema de uma nova produção nacional. Em Valentina, primeiro longa-metragem do diretor Cássio Pereira dos Santos, a personagem-título é uma menina trans de 17 anos, que tenta se adaptar à nova cidade para onde sua família se mudou.

Valentina (Thiessa Woinbackk) tem problemas para se matricular na escola com seu nome social e também precisa enfrentar situações de bullying dos alunos locais. Para superar tudo, ela conta com o apoio da mãe, vivida por Guta Stresser (A Grande Família), e de dois amigos inseparáveis. O filme tem sessão única e diária no Espaço Itaú.

Trailer de Valentina:

Destaque do projeto Sessão Vitrine, no Espaço Itaú, que conta com ingressos mais baratos – R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia) – o filme O Empregado e o Patrão, do diretor Manuel Nieto, é uma coprodução da Argentina, Brasil, França e Uruguai. A história apresenta duas famílias de classes sociais diferentes com filhos recém-nascidos, e que têm seus caminhos cruzados por um trágico evento.  O elenco conta com Jean Pierre Noher (Um Amor de Borges).

Trailer de O Empregado e o Patrão:

 

Pré-estreia

O Cine Passeio começou a realizar, em agosto, sessões de pré-estreia, ocupando as duas salas do espaço sempre com projeções às 10h30 e 11 horas, aos sábados e domingos. A pré desta semana é Lamento, dos diretores estreantes em longa-metragem Diego Lopes e Claudio Bitencourt.

Marco Ricca (As Duas Irenes) protagoniza a trama como Elder, dono de um hotel de luxo herdado do pai rico, mas que põe tudo a perder por causa de seus vícios e excessos, entrando numa grave crise emocional. O elenco destaca ainda Thaila Ayala (Talvez uma História de Amor) e Diego Kozievitch (Castelo Rá-Tim-Bum – O Filme, Curitiba Zero Grau).

Marco Ricca é o protagonista de Lamento, dos diretores Diego Lopes e Claudio Bitencourt.

Crédito das fotos: Divulgação

 

Rudney Flores é jornalista formado pela PUCPR, assessor de imprensa e crítico de cinema, com resenhas publicadas nos jornais Gazeta do Povo e Jornal do Brasil.

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