Casa Gucci destaca trama de trapaças e traições – FILMES, por Rudney Flores

 em Colunistas, Cultura, Rudney Flores

Em um cenário pouco comum no cinema atual, Ridley Scott está apresentando seu segundo filme no mesmo ano. Casa Gucci, uma das principais estreias desta semana, chega às telas pouco depois de drama de época O Último Duelo, lançado em outubro. Em comum, são produções de época, inspiradas em fatos reais. Casa Gucci, no entanto, é ambientado em um período mais próximo, nas décadas de 1970, 1980 e 1990, e conta parte da história da família que criou uma das maiores marcas do mundo da moda.

O projeto atraiu uma constelação de astros hollywoodianos vencedores do Oscar – Al Pacino (Perfume de Mulher), Jeremy Irons (O Reverso da Fortuna), Jared Leto (Clube de Compras Dallas) e Lady Gaga (pela canção Shallow, de Nasce uma Estrela) – e indicados à estatueta dourada – Adam Driver (História de um Casamento) e Salma Hayek (Frida)

Os personagens centrais são Patrizia Reggiani (Gaga) e Maurizio Gucci (Drive). Os dois se conhecem em uma festa, apaixonam-se e logo estarão casados à revelia do pai de Maurizio, Rodolfo (Irons), que considera a futura nora uma alpinista social e não aprova a união. Casado, Maurizio renega por um tempo sua família, mas a própria Patrizia será responsável por uma reaproximação através de seu tio Aldo (Pacino), responsável por comandar e expandir a marca Gucci pelo mundo, além de ser pai de Paolo (Leto).

O roteiro tem elementos de um típico novelão, com direito a muitas falcatruas e traições familiares, o que pede um tom mais solto e extravagante, até pelo universo da moda retratado. Mas Scott foi conservador e conduziu a produção de forma muito séria na maior parte do tempo, travando um melhor desenvolvimento da trama e tornando-a muito sisuda. Há muito o que se contar em três décadas de história, mas perde-se muito tempo com detalhes financeiros e há pouco sobre o real mundo da moda – a entrada do importante estilista Tom Ford na Gucci, por exemplo, que resgatou a marca e a levou a outro patamar, recebe poucos minutos na tela.

Os poucos bons momentos de alívio acontecem com Paolo, com um Leto praticamente irreconhecível na maquiagem e nos trejeitos estranhos de seu personagem idiota, como define o próprio pai Aldo, este defendido por um Pacino em sua tradicional expansividade. O tom cômico também está presente na personagem de Hayek, Pina, uma vidente charlatã que acaba se envolvendo com Patrizia no momento mais trágico da trama.

Drive imprime o tom certo ao contido Maurizio, mas sua passagem de personagem tímido e introspectivo para ambicioso e perdulário acontece abruptamente, sem grandes justificativas. Para completar, Gaga – confirmando a cada novo trabalho suas qualidades como atriz – tem vários momentos de brilho na tela, como era de se esperar, principalmente nas cenas em que se destacam os figurinos. Mas a obrigação da interpretação no inglês carregado com um terrível sotaque italiano prejudica e muito sua atuação – como é de conhecimento, a audiência nos Estados Unidos não curte uma legenda, então, nas grandes produções, em vez da língua original, opta-se pela artimanha de se colocar atores falando em inglês, mas com um sotaque referente ao país que está sendo retratado, tornando tudo estranho e artificial.

O filme é extenso (2h37) e pode-se destacar ainda boas sequências da produção preenchidas com uma ótima trilha sonora de músicas conhecidas dos períodos retratados – “Heart of Glass”, do Blondie; “Faith”, de George Michael; “Here Comes the Rain Again”, do Eurythmics”; e “Baby Can I Hold You”, de Tracy Chapman, na versão dividida com Luciano Pavarotti, que fecha o filme.

Ridley Scott, que já rodou quase todos os gêneros de produção, poderia ter soltado as amarras de Casa Gucci e seguido o exemplo de um dos seus filmes mais leves e descompromissados, Um Bom Ano (2006), com Russell Crowe e Marion Cotillard, no qual percebe-se a alegria e a diversão de todo o elenco na interpretação. A experiência poderia ter sido muito mais positiva para todos, atores e público. Cotação: Regular.

Trailer de Casa Gucci:

 

Crédito da foto: Divulgação/Universal

 

Rudney Flores é jornalista formado pela PUCPR, assessor de imprensa e crítico de cinema, com resenhas publicadas nos jornais Gazeta do Povo e Jornal do Brasil.

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