Clima de nostalgia e muita aventura em Ghostbusters – Mais Além – FILMES, por Rudney Flores

 em Colunistas, Cultura, Rudney Flores

A programação dos cinemas no Brasil destaca três estreias importantes nesta semana. O primeiro título traz o clima de nostalgia dos anos 1980. Ghostbusters – Mais Além, retoma a franquia Os Caça-Fantasmas, iniciada em 1984, e que rendeu dois ótimos e divertidos filmes, que passam sempre tanto na tevê aberta como nos canais pagos – o novo título não tem ligação com Caça-Fantasmas de protagonistas femininas lançado em 2016.

Mais Além – dirigido por Jason Reitman (Juno, Amor sem Escalas), que continua o trabalho do pai, Ivan Reitman, responsável pelos dois primeiros filmes – apresenta Callie (Carrie Coon, de Garota Exemplar), mulher falida e despejada de sua moradia, que vai morar com os filhos Trevor (Finn Wolfhard, da série Stranger Things) e Phoebe (Mckenna Grace, de Um Laço de Amor) em uma casa caindo aos pedaços recebida por herança paterna, e localizada na área rural de uma pequena cidade dos Estados Unidos.

Reconhecido como maluco e excêntrico pela população local, o falecido pai de Callie era na verdade o doutor Egon Spengler, um dos quatro Caça-Fantasmas originais que enfrentaram entidades poderosas na Nova York da década de 1980 – o personagem foi vivido pelo saudoso Harold Ramis, único ator morto do elenco principal original e agora resgatado por computação gráfica para o filme.

Egon nunca acreditou ter vencido completamente o demônio Gozer, que o grupo enfrentou no primeiro filme da série, e se exilou no interior para tentar capturá-lo, abandonando Callie ainda jovem, o que gerou grande revolta na filha durante toda a sua vida. Seus equipamentos são descobertos pelos netos – Phoebe acha a mochila de prótons (o capturador de ectoplasma, a essência dos fantasmas) e Trevor concerta o famoso carro-ambulância do grupo. Ao lado do professor Grooberson (Paul Rudd, o Homem-Formiga do Universo Marvel) e de jovens locais, os irmãos confirmam a nova ameaça de Gozer e decidem confrontá-lo.

Ghostbusters – Mais Além resgata todo o clima de aventura e diversão dos filmes originais, com diversas referências e homenagens aos primeiros filmes – como as voltas do boneco de marshmallow e dos guardiões do Gozer –, além de abrir caminho para a continuação da franquia.

A produção deve conquistar pais nostálgicos e também e os mais jovens, que podem se identificar com os personagens adolescentes – com destaque para talentosa Mckenna Grace e seu pequeno parceiro de cena, o estreante Logan Kin, que vive o engraçado Podcast. Assim como diversos filmes recentes, Ghostbusters – Mais Além também tem cenas pós-créditos. Cotação: Ótimo.

Trailer de Ghostbusters – Mais Além:

 

Crônicas de Wes

Produção muito aguardada desde a estreia no Festival de Cannes deste ano, A Crônica Francesa é o novo trabalho do cultuado diretor Wes Anderson, conhecido por suas produções peculiares e de grande apelo visual, como O Grande Hotel Budapeste, Viagem a Darjeeling, Os Excêntricos Tenenbaums, além das animações O Fantástico Sr. Raposo e Ilha dos Cachorros.

Anderson é também o roteirista desse filme que homenageia o jornalismo tradicional, contando a história de uma fictícia revista cultural de um jornal americano editada em uma cidade também fictícia da França, chamada Ennui-sur-Blasé – a produção foi filmada originalmente na pequena Angoulême, cidade francesa sede de um dos maiores festivais de quadrinhos do mundo, o maior da Europa.

O roteiro destaca a realização da derradeira edição da publicação, depois da morte de seu editor, com seus principais colunistas relembrando grandes reportagens que realizaram. Dessa forma, a estrutura do filme segue como uma antologia, descrevendo a construção de quatro textos da revista, além do obituário do editor. O primeiro texto traz uma visão nada lisonjeira de Ennui, o segundo a história de um prisioneiro psicopata que é descoberto como um grande pintor, o terceiro faz referência ao levante de Maio de 68 de jovens estudantes franceses, e o quarto e último tem uma trama policial envolvendo um cozinheiro.

Para revelar essas histórias, Anderson conta com um impressionante elenco formado por conhecidos atores vencedores ou indicados ao Oscar, além de tradicionais parceiros cinematográficos, que têm papéis de destaque ou fazem rápidas aparições coadjuvantes – Bill Murray, Frances McDormand, Benicio Del Toro, Adrien Brody, Tilda Swinton, Timothée Chalamet, Christoph Waltz, Willem Dafoe, Edward Norton, Saoirse Ronan, Léa Seydoux, Jeffrey Wright, Mathieu Amalric, Liev Schreiber. Os moradores de Angoulême também fazem figuração.

Como esperado, o diretor apresenta cenas de grande esmero visual, calculadas ao extremo, que se alternam a todo momento em cores vibrantes e em fotografia em preto e branco – há uma sequência de animação também –, um verdadeiro deleite, principalmente para quem aprecia seu cinema.

Mas há um desequilíbrio nas antologias. A segunda é disparada a melhor, com Benício Del Toro vivendo o pintor encarcerado, Adrien Brody seu agente e a bela Léa Seydoux sua musa – valia um filme inteiro dessa história. A primeira, mais curta e protagonizada por Owen Wilson, é apenas divertida, e as duas últimas são mais arrastadas, apesar de boas atuações de Frances McDormand e Timothée Chalamet na terceira, e do belo desenho na quarta – realizado pelos estudantes de animação de Angoulême. Mesmo irregular, Anderson sempre merece ser visto, pois é um dos raros artistas autorais do cinema atual. Cotação: Bom.

Trailer de A Crônica Francesa:

 

Suspense em Londres

Conhecido pelo trabalho em comédias realizadas em parceria com o ator Simon Pegg (da franquia Missão: Impossível), como Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso, além dos ótimos filmes de ação e aventura Scott Pilgrim Contra o Mundo e Em Ritmo de Fuga, o diretor Edgar Wright se aventura em um novo gênero em Noite Passada em Soho, outra estreia de destaque desta semana.

A produção se inicia como uma história solar, com a jovem Ellie (Thomasin McKenzie, de Jojo Rabbit e Tempo) saindo de sua pequena cidade natal na Inglaterra para cursar moda na gigante Londres. Amante da música e cultura dos anos 1960 por influência da avó, que a criou após o suicídio da mãe, Ellie tem grandes sonhos de sucesso ao chegar na capital inglesa. Mas, logo a chegar, com o assédio explícito do motorista de táxi que a leva à república que irá morar, percebe que as coisas dificilmente serão fáceis em sua nova vida.

As coisas não são diferentes com as companheiras e companheiros de curso, e logo a moça decide alugar um quarto para morar sozinha. Ela encontra um local aparentemente perfeito na casa da senhora Collins (Diana Rigg, da série Game of Thrones, morta em 2020), no bairro de Soho. No quarto, ela sonha e retorna ao passado, justamente na efervescente Swinging London da década de 1960, e conhece Sandie (Anya Taylor-Joy, da premiada série O Gambito da Rainha), uma decidida cantora que quer brilhar rapidamente na carreira, mas encontra diversos obstáculos.

Ellie cria uma grande conexão com a jovem loira de seus sonhos, que se torna inspiração de vida e para suas criações na escola de moda. A cada dia, ela anseia chegar em casa para sonhar com o passado, mas a trágica vida de Sandie começa a afetar o seu dia a dia, e suas visões tornam-se verdadeiros pesadelos. O suspense e o terror então passam a dominar a tela, com direito até a perseguições de fantasmas, e Ellie, com o histórico de doença mental da mãe (da qual ainda vê uma imagem quando se olha no espelho), tem a sanidade cada vez mais afetada.

Um dos destaques de Noite Passada em Soho é o inventivo jogo de espelhos entre as protagonistas nos sonhos de Ellie, que muitas vezes toma o lugar de Sandie. As luzes intensas, a ambientação de época e a trilha sonora também chamam a atenção. Assim como Em Ritmo de Fuga, Wright faz com que a música se torne importantíssima para o desenvolvimento da história. O diretor/roteirista destaca canções dos anos 1960, de artistas como Cilia Black, The Kinks, The Who, Dusty Springfield, entre outros (Tayor-Joy também revela seus dotes como cantora em “Downtown”), que descrevem os sentimentos ou o que está acontecendo com a protagonista.

A virada no final quebra um pouco o bom ritmo do terror psicológico vivido por Ellie, mas o filme retrata temas interessantes como os efeitos de se viver em constante nostalgia – sempre a época atual é suplantada por uma idealização de um período que não se viveu, algo já tratado por Woody Allen em Meia-Noite em Paris –, as dificuldades de uma grande metrópole, o isolamento e a solidão.

No geral, Wrigth se sai bem no novo gênero investido, e vale aguardar o que ele fará na anunciada nova adaptação de The Running Man (O Concorrente, no Brasil), romance de Stephen King que apresenta um futuro distópico e que já chegou às telas em 1987, na produção O Sobrevivente, estrelada por Arnold Schwarzenegger. Cotação: Bom.

Trailer de Noite Passada em Soho:

 

Outras estreias

Mais um filme produzido pela Netflix estreia na programação do Cine Passeio esta semana. Ataque dos Cães marca a volta da importante diretora Jane Campion (O Piano) à direção de longas-metragens, após mais de uma década.

O western, clássico gênero norte-americano, destaca a história de um bruto fazendeiro (Benedict Cumberbatch, de O Jogo da Imitação), que cria problemas para a cunhada (Kirsten Dunst, de Melancolia) e seu filho (Kodi Smit-McPhee, de Deixe-me Entrar), a nova família do seu irmão (Jesse Plemons, de O Irlandês). A produção estreia dia 1º de dezembro no streaming.

Trailer de Ataque dos Cães:

 

Alfonso Poyart, do surpreendente 2 Coelhos, é um dos diretores do filme nacional Galeria Futuro, ao lado de Fernando Sanches. A história fala de três amigos – vividos por Marcelo Serrado (Crô), Otávio Mueller (O Gorila) e Ailton Graça (Carandiru) – que decidem salvar o decadente centro comercial do título, onde têm lojas, e que está ameaçado de fechamento para dar lugar a uma igreja evangélica.

Trailer de Galeria Futuro:

Uma das maiores tragédias envolvendo o uso da energia nuclear, a explosão da usina de Chernobyl, na antiga União Soviética, em 1986, é tema de mais uma produção. Chernobyl – O Filme – Os Segredos do Desastre foca em três personagens que se envolvem diretamente no acidente, sendo convocados para a ação que vai tentar impedir que a radiação do reator se espalhe pela Europa. Como tem acontecido com alguns filmes russos, a produção tem dublagem em inglês nas cópias no Brasil.

Trailer de Chernobyl – O Filme – Os Segredos do Desastre:

 

Mostras no Cine Passeio

Antecipando a estreia de Deserto Particular na próxima semana, no dia 25, produção dirigida por Aly Curitiba selecionada pelo Brasil para tentar uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional, em 2022, o Cine Passeio promove uma mostra com os longas e curtas-metragens realizados pelo diretor baiano radicado em Curitiba.

As sessões acontecem sempre às 19h30, na sala Cine Luz: dia 18 – curtas A Fábrica e Tarântula e o longa A Gente; dia 19 – longa Para Minha Amada Morta; dia 20 – longa Ferrugem; dia 21 – curtas Pátio e Brasil e o longa Nóis por Nóis; dia 23 – pré-estreia do longa Jesus Kid, vencedor de três Kikitos no Festival de Gramado (melhor direção, roteiro e ator coadjuvante para Leandro Daniel). A pré-estreia de Deserto Particular, no dia 24, já está com ingressos esgotados.

A Mostra de Cinema e Direitos Humanos de Curitiba também é destaque nesta semana no Cine Passeio, com apresentação de filmes com temática de Direitos Humanos. As sessões seguem até o dia 24, sempre às 13h30, na Sala Cine Ritz. Confira a programação em www.cinepasseio.org/programacao.

O  longa Jesus Kid tem pré-estreia na Mostra Aly Curitiba, no Cine Passeio.

Crédito da foto: Divulgação/Grafo Audiovisual.

 

Crédito da foto principal: Divulgação/Sony Pictures

 

Rudney Flores é jornalista formado pela PUCPR, assessor de imprensa e crítico de cinema, com resenhas publicadas nos jornais Gazeta do Povo e Jornal do Brasil.

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