Cotidiano com ou sem Gentileza? – COLUNA RECEITA DE ESCRITA, por Cláudia Moreira

 em Cláudia Moreira, Colunistas, Cultura

Por gentileza, qual é a sua graça? Tive que virar para ver quem pronunciara tais palavras tão diferentes para os meus ouvidos. Acho que meu avô Joaquim falava assim. Seria cantada? Por que ele queria saber meu nome? A curiosidade foi maior do que eu. Era um senhor, todo arrumadinho, e que eu encontrava sempre andando pelo parque, durante as manhãs. Sorri e engatamos uma rápida conversa. O que me chamou atenção é que seu Joaquim – já que lembrei do meu avô, batizei o senhorzinho com o seu nome – era todo gentileza. Gestos comedidos e uma palavra cheia de ternura e de bons modos. Era desculpa pra cá, licença pra lá, obrigado, até logo, e muitos elogios. Um “gentleman”.

Carreguei para casa um sentimento bom. Um estranho me cobrira com um manto de letrinhas gentis. Naquele dia, eu escrevi mensagens no WhatsApp com mais atenção às palavras. Tentei repassar o carinho que recebera do seu Joaquim. Nos poucos minutos que conversamos, ele me ensinou a arte de escrever ao outro. É uma arte facílima, embora esquecida. É um “olá, tudo bem?” Ou ainda um “como está seu dia?”. É um sentir acarinhada.

Quando recebo mensagens ou e-mails sem um cuidado com a educação ou a gentileza, recordo-me do seu Joaquim. Vejo a diferença no tratamento. A pressa tira isso das pessoas. Tira até a graça. Os jovens, muitas vezes, não atentam para este detalhe da linguagem. Mas, sejamos francos, eles – como ninguém – conseguem usar os emojis, o que já é um bom caminho. As carinhas felizes, o sinal de ok, os sorrisos não deixam de ser uma forma de gentileza.

A nossa maneira de nos expressar vem mudando com o tempo. A língua é viva e hoje os mais novos inventam rotas diferentes para mostrar como sentem, aliando carinhas felizes com as palavras. Fico imaginando como seria o “qual é a sua graça?” em emojis ou seu Joaquim passando um “zap” cheinho de corações e outros símbolos para uma desconhecida. O cruzamento das gerações é um campo rico de aprendizado, concorda?

Qual é a sua graça? Nunca me esqueci desta pergunta. Hoje eu responderia: minha graça é ser feliz, conhecendo pessoas que me enriquecem e que me fazem pensar em ser melhor, como o seu Joaquim. Mas, naquele dia, eu só pude virar, com um olhar meio inquisidor e curioso para uma figura tirada de outro século, e sussurrar, com o receio característico destinado a um estranho, o meu nome: Cláudia. Apesar da secura e da minha falta de amabilidade, seu Joaquim sorriu e com gentileza transformou meu dia e minha vida. Por isso, passo adiante para você essa pergunta: Qual é a sua graça?

 

Ilustração: @igor.baldez

 

Cláudia Moreira é mestranda em Escrita Criativa (Uniandrade/PR), formada em Letras e Jornalismo (Uniceub- DF), com especializações em Revisão e Produção Textual (FAE-PR), Desenvolvimento Sustentável (UNB-DF) e Master em Jornalismo (IICS-SP). Tem vários livros publicados, entre eles, Receita de Escrita. É sócia-proprietária da Editora Ponto Vital (PR) e professora de Escrita do Solar do Rosário em Curitiba.

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