Daniel Craig se despende de James Bond em 007 – Sem Tempo para Morrer – FILMES, por Rudney Flores

 em Colunistas, Cultura, Rudney Flores

O fim de um ciclo. Com 007 – Sem Tempo para Morrer, principal estreia nas telas do Brasil esta semana, o ator Daniel Craig fecha uma trajetória de 15 anos como o espião mais famoso do cinema, o que o torna o James Bond mais longevo da franquia de 25 filmes. Craig atuou em cinco dessas produções e ajudou a resgatar o personagem para o cinema de ação no século 21, depois de um período de baixa nos anos 1980 (com Timothy Dalton) e 1990 e início dos anos 2000 (com Pierce Brosnan).

A fase do primeiro Bond loiro também foi marcada por apresentar um conjunto de filmes interligados, diferente dos tradicionais episódios sem conexão. A partir do ótimo começo com Cassino Royale, em 2006, a franquia acertou sempre uma no cravo e outra na ferradura – seguiu com o fraco Quantum of Solace (2008), passou pelo sensacional Operação Skyfall (2012), talvez o melhor filme de James Bond de todos os tempos, e depois teve o irregular Spectre (2015); Sem Tempo para Morrer fica no meio termo, destacando principalmente um tom sentimental pela despedida de Craig.

A nova história apresenta um novo vilão, Safin (Rami Malek, oscar de melhor ator por Bohemian Rhapsody), ainda mais poderoso do que a Spectre comandada por Blofeld (o duplamente oscarizado como ator coadjuvante Christoph Waltz, por Bastardos Inglórios e Django Livre), organização à qual os vilões dos filmes anteriores eram ligados. Bond, inicialmente, está aposentado, vivendo feliz com Madeleine (Léa Seydoux, de Spectre e Azul É a Cor Mais Quente), mas novas ações de Blofeld e também de Safin fazem com que volte à ativa.

Sem muitas novidades, Safin é mais um maquiavélico com poder de destruir o mundo e matar milhões de pessoas, dessa vez usando uma poderosa arma tecnológica que roubou do governo britânico. Malek quase não aparece em cena e faz o que pode, mas pouco recebeu do roteiro para tornar o personagem marcante – ao contrário dos vilões vividos por Javier Barden (exagerado e incrível em Skyfall) e Mads Mikkelsen (Cassino Royale).

A parte positiva da produção dirigida por Cary Joji Fukunaga (responsável pela ótima primeira temporada da série True Detective) são as tradicionais e grandiosas cenas de ação e os novos “brinquedos” tecnológicos de Q (Ben Wilshaw, de O Lagosta). Há ainda a boa novidade de uma mulher negra assumir a posição de 007 (Lashana Lynch, de Capitã Marvel), algo que poderia ser um caminho para a franquia, mas ainda não há nada confirmado sobre a sequência da série no futuro.

O sentimentalismo no filme começa com Bond descobrindo uma família e se estende até o final da longa produção de 2 horas e 43 minutos, que se torna uma celebração esperada de Craig e do personagem. O ator pode ser considerado o segundo melhor Bond da história, ficando abaixo, claro, do ícone Sean Connery.

Com seu perfil mais bruto – diferente da elegância vista nos filmes das décadas anteriores –, o Bond de Daniel Craig conseguiu destaque e manteve a relevância em uma época que também foi marcada pelo espião Jason Bourne de Matt Damon e a pela reinvenção do agente secreto Ethan Hunt realizada por Tom Cruise na franquia Missão: Impossível. Cotação: Bom.

Trailer de 007 – Sem Tempo para Morrer:

 

Crepúsculo do macho

Clint Eastwood segue firme na carreira no cinema aos 91 anos e lança mais uma produção em que dirige e atua ao mesmo tempo. Cry Macho – O Caminho para Redenção, que só estreia no Cine Passeio em Curitiba, é mais um encontro do artista com o universo do caubói, pelo qual ficou marcado pelos ótimos filmes da trilogia do Homem Sem Nome (Por um Punhado de Dólares, Por uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito, todos de meados da década de 1960) e pelo clássico Os Imperdoáveis (1992).

A história se passa em 1980 e Clint vive Mike Mino, velho caubói que recebe a missão de achar e trazer para o Texas o filho de seu ex-patrão Polk (o cantor e ator Dwight Yoakam), que vive no México com a mãe. Mino tem uma dívida com Polk, que o ajudou após abandonar a carreira nos rodeios e ver sua família morrer (mulher e filho), e o resgate do adolescente será uma espécie de pagamento.

O personagem parte para o país vizinho e encontra Rafo (Eduardo Minett) e seu galo de briga Macho, convencendo o menino a acompanhá-lo aos Estados Unidos. A dupla acaba tendo uma trajetória com alguns percalços, fortalecendo seus laços de amizade e confiança. No caminho, eles passam um tempo em uma pequena cidade mexicana e recebem a ajuda da viúva Marta (Natalia Traven), que até se engraça pelo caubói.

Eastwood tinha o desejo de adaptar o livro homônimo para o cinema desde os anos 1990, mas não se achava, na época, suficientemente velho para o papel. O projeto chegou a ter Arnold Schwarzenegger cotado para viver Milo, mas acabou voltando para o veterano diretor e ator.

Assim como o contemporâneo Woody Allen (hoje com 86 anos), os filmes de Clint são acima da média do que é apresentado no cinema atual, e Cry Macho não é diferente, apesar de não ser tão inspirado quanto seus melhores trabalhos – mas há bons momentos. A nova produção traz elementos de outras produções do cineasta, como Um Mundo Perfeito (1993), Gran Torino (2008) e A Mula (2018), e mesmo de Os Imperdoáveis.

Acompanhando o ritmo do personagem e da própria idade, Clint não tem pressa em desenvolver a trama. Tudo é filmado com calma e delicadeza, principalmente nas cenas na pequena cidade, nas quais Milo e Rafo se aproximam, com o veterano ensinando o jovem a arte de domar um cavalo selvagem, e também cedendo aos encantos da viúva Marta, tudo em cenas de pura sensibilidade – remetendo a As Pontes de Madison (1995), outro dos destacados trabalhos de sua extensa cinematografia.

Como não tem mais a mesma desenvoltura para cenas mais físicas, alguns conflitos do filme são resolvidos rapidamente e até de forma engraçada, e o diretor chega a brincar também sobre a condição do macho, com o personagem dizendo, em certo momento, que “essa coisa de caubói é super valorizada”.

Para alguns, toda essa platitude pode levar ao pensamento de que o filme não sai do lugar, mas isso é um fator muito positivo para o espectador em uma época em que predomina a ação incessante nas telas – há um tempo para se apreciar uma obra, perceber seus detalhes e sutilezas, e Eastwood cada vez mais é mestre nesses momentos. Cotação: Bom.

Trailer de Cry Macho – O Caminho para Redenção:

 

Outras estreias

O Cine Passeio ainda programa duas estreias nesta semana.  O drama alemão Meu fim. Seu Começo, primeiro longa-metragem da diretora Mariko Minoguchi, traz a história de Nora (Saskia Rosendahl), que se apaixona por Aron (Hanns Zischler) à primeira vista. Mas ele morre em seus braços após um assalto.

A vida de Nora fica em suspenso, mas, após um tempo, ela se envolve com outra pessoa que tem a sensação de já conhecer.

Trailer de Meu Fim. Seu Caminho:

Em seu novo filme, DNA, a diretora e atriz Maïwenn (Meu Rei) interpreta Neige, mulher muito ligada ao avô de origem argelina, que por muitos anos foi o elo que uniu toda a sua família. Após a morte do velho, Neige enfrenta uma crise pessoal e começa a buscar suas origens árabes, enquanto ainda mantém muito conflitos com os pais e os irmãos.

Ela também conhece François (Louis Garrel, de Canções de Amor), uma pessoa que tem uma visão mais leve e positiva da vida. O elenco ainda destaca Fanny Ardant (8 Mulheres) e Marina Vacht (Jovem e Bela).

Trailer de DNA:

 

Rudney Flores é jornalista formado pela PUCPR, assessor de imprensa e crítico de cinema, com resenhas publicadas nos jornais Gazeta do Povo e Jornal do Brasil.

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