Daniel Filho adapta Garcia-Roza em O Silêncio da Chuva – FILMES, por Rudney Flores

 em Colunistas, Cultura, Rudney Flores

Diretor de prestígio, com vários trabalhos na televisão e no cinema, no qual deteve por algum tempo de maior bilheteria nacional com a comédia Se Eu Fosse Você 2 (mais de 6 milhões de espectadores), Daniel Filho está lançando seu novo filme, o policial O Silêncio da Chuva, livremente inspirado na obra homônima do escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza.

A produção, que em Curitiba só estreia no Cine Passeio, destaca o inspetor policial Espinosa, vivido por Lázaro Ramos, personagem de vários livros publicado pelo autor. É a primeira aventura do detetive, que investiga a morte do executivo Ricardo (Guilherme Fontes, de Chatô – O Rei do Brasil), encontrado com alguns tiros em seu carro no Morro da Urca, no Rio de Janeiro.

Ao lado da espevitada e fogosa parceira Daia (Thalita Carauta, de Duas de Mim), que contrapõe sua seriedade, Espinosa inicia uma investigação que vai se desdobrando em vários caminhos, envolvendo diversos personagens suspeitos da morte: a esposa do executivo Bia (Cláudia Abreu, de Os Desafinados), a secretária Rose (Mayana Neiva, de Para Minha Amada Morta), o marginal Max (o novato Peter Brandão) e o michê Júlio (Bruno Gissoni, o Dedeco da nova série televisiva Os Trapalhões). Quem também colabora com o detetive é Aurélio (Otávio Müeller, de O Gorila), seu ex-chefe na delegacia.

O veterano cineasta comanda esta espécie de noir tropical com muita segurança e a tradicional competência e experiência de quem domina há muitos anos a arte da direção. Não há atropelos na trama, que alterna momentos tranquilos, refletindo a personalidade do protagonista, afeito à leitura e à dedução, e sequências de ação e violência. Há ainda algumas reviravoltas, tradicionais do gênero, assim como o final surpresa.

O destaque do filme vai para o ótimo elenco, principalmente para Ramos, que domina as ações com elegância, confirmando a cada produção sua relevância e seu lugar entre os maiores atores brasileiros – seja no cinema, teatro ou televisão. Oriunda da comédia, Carauta é competente como contraponto cômico, e Cláudia Abreu se sobressai nas poucas cenas em que aparece – a atriz deveria fazer mais cinema. Müeller, outro ótimo ator que merece ser celebrado, encontra o tom certo para o safado e violento Aurélio.

Em ação não muito comum no cinema nacional, O Silêncio da Chuva tem uma cena pós-créditos. Vale a pena conferir, principalmente porque também nos créditos está a menção sobre o número de pessoas empregadas direta ou indiretamente pela produção, e sobre a valorização da arte e a importância dela para toda a sociedade em tempos em que a toda a área da cultura tem sido marginalizada no país. Muitas produções recentes estão incluindo este expediente para mostrar que a indústria cultural, como todas as outras, gera muitos empregos e também é importante para a economia de um país.

Para quem sempre vai embora da sala logo após a última cena e não vê os créditos, e depois fica criticando a “mamata” do cinema nacional, vale o conselho de às vezes ficar um pouco mais e acompanhar a imensa lista de técnicos e colaboradores que participaram da construção da obra que se acabou de assistir, todos também assalariados como a maioria da população brasileira. Cotação: Ótimo.

Trailer de O Silêncio da Chuva:

 

Cinema chileno politizado

Dois dos principais cineastas chilenos da atualidade – Pablo Larraín (No) e Andrés Wood (Machuca) – sempre colocam o dedo na ferida e, constantemente, rememoram e debatem em suas obras locais as marcas que o período ditatorial deixou no país. Este tema também está presente em Aranha, novo filme de Wood que está sendo lançado apenas no Cine Passeio, na capital paranaense.

A coprodução chilena-argentina-brasileira resgata uma história real relacionada ao movimento de extrema direita Pátria e Liberdade, que nos anos 1970 apoiou o golpe militar que derrubou o presidente eleito e de esquerda, Salvador Allende.

No presente da trama, Gerardo (Marcelo Alonso), atropela e mata um jovem assaltante com seu carro. A polícia acha no veículo várias armas e descobre que ele é um ex-militante do Pátria e Liberdade, envolvido em diversos assassinatos. A prisão de Gerardo desperta Inés (Mercedes Móran, de O Pântano), personagem influente na sociedade chilena, que procura abafar o caso com seus contatos nos meios político e judiciário.

O envolvimento de Gerardo e Inés é revelado através de flashbacks, que os apresenta como jovens que acabam participando do movimento extremado de direita no início dos anos 1970 – cujos militantes eram conhecidos como aranhas, daí o nome da produção. Inés e o marido Justo são da classe alta chilena e conhecem em uma gravação de tevê o bruto Gerardo, militar expulso da aeronáutica. O casal convida o rapaz para participar de reuniões do Pátria e Liberdade, e a relação entre eles acaba avançando para o que hoje é chamado de trisal.

Aos poucos, vai se revelando o que aconteceu com cada um deles depois de um momento chave da história chilena – o assassinato do chefe militar do governo Allende em 1970, o que abalou muito a situação política da época. Gerardo viveu escondido por muitos anos, alimentando sua veia extremista, enquanto o casal seguiu a vida tornando-se influente na elite chilena.

Woods cria uma interessante alegoria para mostrar e refletir o envolvimento sempre muito próximo das classes mais altas chilenas com a extrema direita, muitas vezes escondido e não assumido, uma questão que ainda causa muitas fissuras na sociedade do país que, nos últimos anos, se alternou entre os governos de esquerda de Michelle Bachelet e de direita de Sebastián Piñera. Cotação: Bom.

Trailer de Aranha:

 

Terror

Gênero sempre em destaque nos cinemas, o terror tem dois lançamentos na programação desta semana nos cinemas de Curitiba. O primeiro é A Casa Sombria, do diretor David Bruckner (O Ritual), estrelado por Rebecca Hall (Vicky Cristina Barcelona).

A atriz vive Beth, que mora sozinha em uma casa no lago após o suicídio do marido. Ela passa a ter visões perturbadoras e decide investigar a vida do companheiro morto. Beth descobre muitos segredos, incluindo uma casa invertida em relação à sua, que o marido estava construindo em um local isolado. O mistério a atrai cada vez mais e ela se depara com terríveis revelações sobre o falecido.

Trailer de A Casa Sombria:

Em A Chorona, o diretor guatemalteco Jayro Bustamente, apresenta uma variação da conhecida lenda mexicana, já adaptada para o cinema em A Maldição da Chorona. A nova trama é toda filmada na Guatemala e traz a história de um ditador local (amálgama de muitos dos ditadores reais que governaram o país da América Central) que consegue escapar da acusação de genocídio depois de abandonar o governo.

Junto com a família, ele se recolhe à sua mansão, mas o povo não aceita a decisão do tribunal e faz um cerco à casa. Ao mesmo tempo, o velho fica paranoico quando passa a escutar lamentos e sussurros, que seriam de uma mulher que faz parte dos milhares assassinados a seu mando muito anos antes. O filme estreia nas salas do UCI (Estação e Palladium) e no Cinépolis Jockey Plaza.

Trailer de A Chorona:

 

Outras estreias

O diretor Ray Yeung destaca um sensível drama gay em Suk Suk – Um Amor em Segredo. Hong Kong, país natal do cineasta, não permite casamentos homoafetivos, o que obriga muitos homossexuais a construir uma vida familiar de mentiras, com casamento e filhos.

Na trama, dois senhores, o taxista Pak, de 70 anos, e aposentado Hoi, de 65, decidem viver um romance secreto, com muitos encontros escondidos para evitar o preconceito de suas respectivas famílias e da sociedade local. A produção tem lançamento no Cine Passeio.

Trailer de Suk Suk – Um Amor em Segredo:

O diretor Luis Pinheiro e a atriz Maria Casadeval repetem a parceria da comédia Mulheres Alteradas no drama Garota da Moto. Casadeval é Joana, mulher que se trona independente cedo para cuidar do filho Nico (Kevin Cheviatto, o Cebolinha de Turma da Mônica – Laços).

Ela trabalha como motofretista e vira uma espécie de justiceira quando descobre acidentalmente um grupo de mulheres refugiadas que tem trabalho escravo em uma fábrica. Ela decide ajudar as exploradas e passa a ser perseguida por marginais, que também ameaçam seu filho e outras pessoas próximas.

Trailer de Garota da Moto:

Refilmagem norte-americana da boa comédia dramática francesa A Família Bélier, o filme No Ritmo do Coração, da diretora Sian Heder, causou grande impacto no prestigiado Festival de Sundance deste ano, recebendo os prêmios de melhor filme pelo público e melhor direção.

A história apresenta a jovem Ruby (Emilia Jones), que vive com o pai, a mãe (Marlee Matlin, vencedora do Oscar de melhor atriz por Os Filhos do Silêncio) e o irmão, todos surdos. Mas a garota não tem a deficiência auditiva e serve de intérprete para a família em seu negócio de pescaria (no original, era uma fábrica de queijos).

Ruby vê desabrochar seu talento musical e tem a oportunidade de estudar em uma escola prestigiada, mas terá que enfrentar o dilema de abandonar os parentes para viver seu sonho.

Trailer de No Ritmo do Coração:

A animação alemã A Abelhinha Maya e o Ovo Dourado apresenta a terceira aventura da dupla Maya e Willi, jovens abelhas que sempre se metem em confusões. Dessa vez, eles devem proteger uma pequena princesa-formiga de outros insetos inimigos que querem matá-la.

Trailer de A Abelinha Maya e o Ovo Dourado:

Há 25 anos, o Oasis era uma das maiores bandas do planeta. Na época, os irmãos Liam e Noel Gallagher, líderes do grupo, tinham a devoção de quase todo o Reino Unido, o que foi comprovado nas duas noites de shows no Parque Knebworth, que tiveram ingressos esgotados em poucas horas e receberam um público combinado de 250 mil fãs.

O documentário Oasis Knebworth 1996, com sessões únicas nesta sexta-feira (24) no UCI Estação e no UCI Palladium, destaca os shows e contextualiza uma das últimas fases douradas do rock no mundo.

Trailer Oasis Knebwoth 1996:

Crédito da foto: Divulgação/Elo Company

Rudney Flores é jornalista formado pela PUCPR, assessor de imprensa e crítico de cinema, com resenhas publicadas nos jornais Gazeta do Povo e Jornal do Brasil.

Postagens Recomendadas

Deixe um Comentário