Fim de Ciclo – COLUNA RECEITA DE ESCRITA, por Cláudia Moreira

 em Cláudia Moreira, Colunistas, Cultura

Finados sempre me lembra que vivemos em ciclos que começam e terminam. Às vezes, acabam de forma feliz; outras, nem tanto. Alguns rituais marcam bem essas fases de mudança como a cerimônia das Tucandeiras dos índios Sateré-Mawé. Os adolescentes colocam as mãos em uma luva cheia de formigas com mordidas poderosas, de tão doídas que são. A partir daí, os meninos índios podem constituir família, o que marca a passagem deles para a idade adulta. Na nossa cultura, temos o casamento, a festa de 15 anos, o bar mitzvah dos judeus, o velório, as formaturas e agora, ainda criaram as festas de divórcio. Tudo para fechar ciclos ou abri-los.

Só que há ciclos que não são tão aparentes assim. Falo dos nossos desafios internos. Aquela tristeza mal resolvida, a mágoa de alguém, um passado que não passa. Imagino uma pulseira de ouro quebrada que guardamos anos até que nos esquecemos dela. Um dia, arrumando as gavetas, achamos aquela peça e nem sabemos o que fazer: jogamos fora, arrumamos, deixamos ali mesmo pegando poeira? Será que não estamos tratando nossos sentimentos da mesma maneira? O que estamos fazendo com eles?

Os ciclos internos são mais difíceis com certeza. Isso porque a gente não se conhece direito e nem pensa demais nessa coisa de se arrumar por dentro, não é? Parece que a festa de divórcio ocorre só por fora. A raiva, a mágoa, as situações não conversadas ficam em um ciclo sem fim, remoendo a dor e nos trazendo infelicidade. Eu adoro aquelas moiras da mitologia grega que tinham uma tesoura para cortar os fios do destino. Eu imagino com facilidade essas bruxas cortando os sentimentos ruins de dentro de mim. Assim, eu procuro encerrar ciclos e jogo fora tudo o que não presta. É como uma página virada e o início de um novo capítulo, quiçá, um novo livro em branco para eu escrever uma história melhor e com final feliz. Feliz no sentido do filósofo Epicuro que dizia que a felicidade deveria se basear no prazer, prazer não com o significado de sexo, drogas e rock’n roll, mas uma vida sem dor e sem medo, simples assim.

Talvez por pensar assim é que quando assisto ao filme infantil Rei Leão, eu me emociono. É tão clara a definição de ciclo, tão natural… Tudo acaba, tudo começa. A roda da vida gira, dá uma parada, volta a girar. Bonito ver isso. Maravilhoso ficar mais velha e ter um olhar menos ansioso para cada ciclo, poder saber que aquela tristeza ali vai ter fim, que eu e só eu posso consertar a minha pulseira de ouro quebrada.

 

Ilustração: @igor.baldez

 

Cláudia Moreira é mestranda em Escrita Criativa (Uniandrade/PR), formada em Letras e Jornalismo (Uniceub- DF), com especializações em Revisão e Produção Textual (FAE-PR), Desenvolvimento Sustentável (UNB-DF) e Master em Jornalismo (IICS-SP). Tem vários livros publicados, entre eles, Receita de Escrita. É sócia-proprietária da Editora Ponto Vital (PR) e professora de Escrita do Solar do Rosário em Curitiba.

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