Ninho Cheio ou Vazio? – COLUNA RECEITA DE ESCRITA, por Cláudia Moreira

 em Cláudia Moreira, Colunistas, Cultura

A casa “tá” cheia.

Mãe, você tem acetona? É areia o tempo todo. Varre. Limpa. Pega aquele monte de roupa e põe na máquina. Pendura, dobra, guarda. Geladeira vazia. Compra, faz comida. Vamos sair pra comer? Dinheiro. Cadê meu chinelo? Procura daqui e dali. Cama sem fazer. Preguiça. Faz massagem? Eu quero. Toque, amor. Cafuné? Tem também. Quem quer brigadeiro? Psiu… Ele está trabalhando. Pé ante pé. Risos na cozinha. Cochichos no quarto. Andar na praia? Não vão chegar tarde. Meia-noite, meia-noite e um, meia-noite e trinta. Ufa! Enfim, zzzzzzzz.

No outro dia, a mesma rotina e mais e mais e mais. Traz pão. Eu prefiro tapioca. Requeijão. Estende a toalha. Sorrisos, brigas, carinho, tempo fecha, tempo abre. São 15 dias contados naquela amontoado de meses do ano. Nada planejado. Tudo junto, tudo separado, tudo grudado, tudo solto, tudo leve, tudo muito intenso.

De repente, o vendaval da vida. Cada um com suas obrigações. Não vai, não. A gente se encontra onde? Não se esquece de ligar. Te amo. Eu também. Cuidado! Não se faz de pomba lesa. Presta atenção no mundo. Perigos, doenças, violência. Terço. Deus abençoe, te guarde, te proteja, te tudo. Entrega a prole. Eles foram… mais uma vez. Eu fiquei, mais uma vez.

A casa “tá” vazia.

Silêncio. Não tem mais agitação e nem pó para tirar. Não tem cama desarrumada. A maçaneta não gira às altas horas da noite. Não há reclamações de horário e nem de barulho. A conta de luz baixou, as toalhas não ficam mais espalhadas em cima das cadeiras para secar. Nem estamos gastando muito. Tudo está no lugar, mas não. Falta. Cadê? A ordem dói e a calmaria grita. Surdez de saudade.

Agora é contar minutos dentro dos meses lerdos. Logo, a desordem estará voltando junto à felicidade. Já nem me lembro do trabalho que tive. Louca para arrumar camas, ter a luz acesa em todos os cômodos, gastar dinheiro, reclamar que preciso de silêncio para dormir. Cadê a casa cheia?

 

Ilustração: @igor.baldez

 

Cláudia Moreira é mestranda em Escrita Criativa (Uniandrade/PR), formada em Letras e Jornalismo (Uniceub- DF), com especializações em Revisão e Produção Textual (FAE-PR), Desenvolvimento Sustentável (UNB-DF) e Master em Jornalismo (IICS-SP). Tem vários livros publicados, entre eles, Receita de Escrita. É sócia-proprietária da Editora Ponto Vital (PR) e professora de Escrita do Solar do Rosário em Curitiba.

Postagens Recomendadas
Mostrando 2 comentários
  • Alessandra
    Responder

    “A ordem dói e a calmaria grita. Surdez de saudade.” Que lindo, Clau! Me identifico. Não como mãe especificamente, mas enxergo minha família. Seu texto me remete ao movimento da vida.

  • Priscila Idê Ribeiro
    Responder

    Que lindo Claudinha! Texto que me fez voltar quando ainda morava com meus avós já falecidos. Lembranças incríveis!

Deixe um Comentário