O Amanhã É para Poucos – COLUNA RECEITA DE ESCRITA, por Cláudia Moreira

 em Cláudia Moreira, Colunistas, Cultura

Eu só via seus olhos. O resto todo estava escondido atrás da máscara enorme e folgada, com certeza, de propriedade de um adulto. A criança se aproximou quando parei o carro no sinal. Ela não disse nada. Ficou com o rostinho pregado no vidro, olhando para mim e depois desviando a atenção para um sanduíche exposto ao meu lado. Uma lágrima escorreu e logo foi expulsa por mãos sujas e suadas. Nenhuma palavra. O sinal abriu.

A menina, que não devia ter mais do que 10 anos, saiu correndo para a calçada, mas ainda deu tempo de me dar uma última olhada. Acelerei e fui embora, nem querendo checar o retrovisor. A rua era abarrotada de restaurantes e cafés, e minha atenção foi para o belo e para as luzes daquele lugar. Meu pensamento voou para longe e se esqueceu da barriga vazia da guria ali atrás.

O caminho que eu acabara de fazer era obrigatório e diário. Só mesmo aos sábados e domingos é que eu não trafegava por aquelas ruas. Amanhã eu veria de novo aquele olhar esfomeado e triste. Quem sabe, amanhã, eu não ajudaria! Hoje eu estava com pressa, tinha coisas a fazer, tão importantes que nem me lembro mais. É, amanhã, eu daria comida e até, levaria um casaco, umas roupas velhas para aquela menina. Amanhã.

Em casa, tomei banho quente, comi meu sanduíche com uma taça de vinho e fui deitar na cama quentinha e cheia de cobertores. O inverno estava forte em Curitiba. Hoje a previsão era de 4 graus. Fiquei vendo televisão e, de repente, vi a menina da máscara grande. Peguei a matéria pela metade e não entendi direito a história. Amanhã, eu me preocupo com isso!

A rotina se iniciou no outro dia. Acordei, comi meus pêssegos e me aprontei para o trabalho. Perfume francês, uma blusa de seda e um salto alto. Óculos escuros e vamos embora. O mesmo trajeto. Notei que, na esquina em que vira a menina da máscara, havia um burburinho. O sinal fechou e prestei mais atenção. Alguém estava deitado no chão. Tumulto e gente gritando. É morte, na certa. Amanhã, eu leio nos jornais.

Só me recordo que quando o carro saiu do lugar, houve uma espécie de explosão, um barulho imenso. Eu não me mexia. Sentia sangue escorrendo. Ainda deu tempo de eu enxergar, pelo vidro, aquele olhar da menina. Ela foi a primeira a chegar. Desmaiei. Só ela terá o amanhã.

 

Ilustração: @igor.baldez

 

Cláudia Moreira é mestranda em Escrita Criativa (Uniandrade/PR), formada em Letras e Jornalismo (Uniceub- DF), com especializações em Revisão e Produção Textual (FAE-PR), Desenvolvimento Sustentável (UNB-DF) e Master em Jornalismo (IICS-SP). Tem vários livros publicados, entre eles, Receita de Escrita. É sócia-proprietária da Editora Ponto Vital (PR) e professora de Escrita do Solar do Rosário em Curitiba.

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