Observando a vida… – COLUNA RECEITA DE ESCRITA, por Cláudia Moreira

 em Cláudia Moreira, Colunistas

Sou daquelas pessoas “olhudas”. Saio andando pelo parque, absorta, observando tudo e todos. Reparo no jeito de falar das pessoas, nos gestos, no sotaque, na maneira como se vestem, andam, correm, comem e dialogam com os animais de estimação. Vejo as folhas em forma de coração, as casas de João de Barro e até conto as capivaras que encontro pelo caminho. O colorido do diferente me encanta.

Levo mais de uma hora no meu percurso, despertando a criança adormecida e preguiçosa que vive em mim. Não é fácil treinar o olho da gente para ver além. Eu aproveito e cutuco a criatividade, criando personagens para quem passa ao meu lado, e até formulando histórias sobre a conversa da moça que reclama do namorado ou sobre o mal-educado que tropeça em mim por causa da atenção apenas voltada para o celular. Isso sem contar na observação dos meus preferidos: selfies, gravações narcisistas, fotos para o Instagram, Facebook, ou seja, esse “mundinho do eu” bem moderno, onde o outro é quase um dinossauro extinto.

Exercito ao máximo esse olhar 360 graus. Coloco-me, por exemplo, no lugar do cachorro que ouve a dona melosa pedir que se comporte, afinal, ele já é quase um “homenzinho”. Se cachorro eu fosse, com certeza, morderia a perna dela achando ser um doce fabuloso. Viu? É isso que fico inventando nas caminhadas. Loucuras. Qualquer dia vão me internar dentro de um livro. Minha mente voa, observa, cria, desconstrói, imagina, enxerga mais do que o olho alcança.

E aí, depois de tanto enlouquecer, volto para casa e, na hora de tirar a roupa para aquele banho gostoso, vejo que minha blusa está do avesso. Caio na gargalhada. Cuidei tanto da vida dos outros que me esqueci de olhar para mim. Talvez, esta seja a maior dificuldade. Olhar para dentro da gente. Observar nossos sentimentos. Colocar para fora tudo o que está incomodando e que precisa ser jogado na lata de lixo ou no papel/computador. Faço sempre uso desta segunda opção: observar e escrever.

Ilustração: @igor.baldez

 

Cláudia Moreira é mestranda em Escrita Criativa (Uniandrade/PR), formada em Letras e Jornalismo (Uniceub- DF), com especializações em Revisão e Produção Textual (FAE-PR), Desenvolvimento Sustentável (UNB-DF) e Master em Jornalismo (IICS-SP). Tem vários livros publicados, entre eles, Receita de Escrita. É sócia-proprietária da Editora Ponto Vital (PR) e professora de Escrita do Solar do Rosário em Curitiba.

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Mostrando 2 comentários
  • taina baldez
    Responder

    Gostei!

  • Denise Vasconcelos
    Responder

    “Qualquer dia vão me internar dentro de um livro” rsrs ADOREI!!!

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