Óculos da Vida – COLUNA RECEITA DE ESCRITA, por Cláudia Moreira

 em Cláudia Moreira, Colunistas, Cultura

Cadê meus óculos? Acho que os perdi. Sem eles, não consigo enxergar com exatidão, apenas vejo formas sem muito sentido e minhas letrinhas ficam ao léu da adivinhação, tentando montar significados. Assim, sem a possibilidade de me atirar às leituras, fiquei matutando sobre a visão. E o resultado da bagunça da mente foi a seguinte: será que realmente vemos o que é preciso enxergar?

Curioso é que, sem óculos, eu tentava enxergar algo mais. Percebi o meu coração batendo e lembrei que, meses antes, fizera um exame de imagem que mostrou, literalmente, um coração em 3D. Mas eu o enxerguei por dentro ou só mesmo na foto colorida? Eu sei que o bichinho gritou, alardeou, bradou. Tinha horas que queria sair do peito. Eu não o vi. Ele precisava de mais, mais amor, mais empatia, mais compreensão. Ao mesmo tempo, pedia por menos, menos ansiedade, menos rancor, menos preocupação. Eu não o enxerguei.

Assim como não enxerguei as dores que se guardavam dentro de mim, também não observei o medo do julgamento e este foi se tornando um monstro. Deixei passar ainda a vontade de ajudar o outro e nem sequer vi a beleza em estar viva. Eu era uma cega de óculos! Via e não enxergava.

Mesmo com aqueles óculos caros e umas lentes potentes, percebi o quanto deixara de ver, de enxergar. Entretanto, doía estar frente a frente com as sujeiras empurradas para baixo do sofá. Eu agora escutava os incômodos, notava os detalhes, sentia as perdas. A ausência da visão por algumas horas me abriu um mundo interno imenso. Os sentidos se aguçaram e eu vi, eu enxerguei, eu iluminei.

Enquanto pensava nisso, sentei no sofá e um incômodo me fez levantar rapidamente. Meus óculos estavam ali, agora, quebrados. Eu tinha duas opções: comprar uma armação nova ou deixar de pensar em enxergar a vida de fato. Escolhi a segunda. Talvez eu não estivesse preparada para ver além. Corri para a loja, coloquei um novo amigo no rosto e saí faceira, escondendo a minha mais nova descoberta: eu era uma cega de óculos.

 

Ilustração: @igor.baldez

 

Cláudia Moreira é mestranda em Escrita Criativa (Uniandrade/PR), formada em Letras e Jornalismo (Uniceub- DF), com especializações em Revisão e Produção Textual (FAE-PR), Desenvolvimento Sustentável (UNB-DF) e Master em Jornalismo (IICS-SP). Tem vários livros publicados, entre eles, Receita de Escrita. É sócia-proprietária da Editora Ponto Vital (PR) e professora de Escrita do Solar do Rosário em Curitiba.

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