Palavra Arrancada – COLUNA RECEITA DE ESCRITA, por Cláudia Moreira

 em Cláudia Moreira, Colunistas, Cultura

Como se arrancar do silêncio e virar narrativa? A frase é da Eliana Brum, uma jornalista que escreveu um livro chamado Meus Desacontecimentos – A História da Minha Vida com as Palavras. Arrebatador! Fui fisgada já pelo título, claro. Aí fiquei pensando na dor de se puxar pela raiz para se colocar no texto os sentimentos. Quando isso acontece, a poesia vem junto, como a terra grudada ao arrancarmos uma planta presa ao solo. Toda a carga emotiva aparece em cada cantinho do que é escrito. O lado humano se manifesta e a beleza, às vezes doída, atinge quem lê, fazendo a ponte entre a alma e o coração.

A palavra trabalhada é realmente encantamento puro. A arte de tecer cada letra com maestria é para poucos. Acho bonito quem tem esse dom de tocar o outro e de estimular sentimentos escondidos, colocando a palavra como instrumento. A construção de um texto é similar a um jardim. A metáfora funciona. Temos as sementes da vontade de escrever que são plantadas. Regamos com poesia, sentimentos, técnica e alma. Cuidamos com o coração. Tiramos as ervas daninhas, aquelas palavras que não se ajustam ao texto, podamos os erros de português, as letras repetidas ou erros de digitação. Ao final, nosso terreno, antes silencioso, vira algo colorido, cheio de vida. Torna-se uma narrativa!

E há épocas em que o jardim não dá flores, assim como a palavra também tem dificuldades de vir à tona. O jeito é esperar o tempo certo para remexer na terra, colocar adubo, a tal da criatividade. A palavra se cala, silencia, como a pedir um respiro. A natureza é feita de ciclos, não é? A palavra está ali, invisível, na espreita da hora certa de ser colocada no papel. Até que venha alguém colher as flores do jardim.

Sair do silêncio é ter a coragem de cultivar um jardim. Virar narrativa é colher as flores plantadas. Tudo leva tempo, tudo a seu tempo.

 

Ilustração: @igor.baldez

 

Cláudia Moreira é mestranda em Escrita Criativa (Uniandrade/PR), formada em Letras e Jornalismo (Uniceub- DF), com especializações em Revisão e Produção Textual (FAE-PR), Desenvolvimento Sustentável (UNB-DF) e Master em Jornalismo (IICS-SP). Tem vários livros publicados, entre eles, Receita de Escrita. É sócia-proprietária da Editora Ponto Vital (PR) e professora de Escrita do Solar do Rosário em Curitiba.

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