Ridley Scott comanda o épico O Último Duelo – FILMES, por Rudney Flores

 em Colunistas, Cultura, Rudney Flores

Com a prevalência do cinema baseado no mundo dos quadrinhos, as grandes produções épicas clássicas não têm ganho muito destaque nas telas nos últimos anos. A mais recente foi 1917, de Sam Mendes, que concorreu a várias estatuetas do Oscar em 2020 Assim como Mendes, vencedor do Oscar de direção por Beleza Americana, há poucos outros cineastas capazes de comandar filmes do gênero atualmente. Dessa forma, não é surpresa que o veterano Ridley Scott (Gladiador), de 83 anos, seja o responsável por O Último Duelo, principal estreia da semana nos cinemas do Brasil.

Inspirado em uma história real, a grande produção é ambientada na França do fim do século 14, uma época de reis, suseranos e vassalos. A produção se inicia com os preparativos do duelo entre Jean de Carrouges (Matt Damon, de Perdido em Marte) e Jacques Le Gris (Adam Driver, de História de um Casamento). Dividida em três capítulos, a trama irá explicar como os homens chegaram ao ponto de se digladiarem.

A primeira visão é sobre Carrouges, nobre veterano de batalhas em defesa do Rei da França. Atolado em dívidas com seu senhor feudal, Pierre D’Alençon (Ben Affleck, de Argo), ele aceita se casar com Marguerite (Jodie Comer, da série de sucesso Killing Eve), filha do nobre considerado traidor da pátria Robert de Thibouville (Nathaniel Parker), que tem um belo dote financeiro.

Carrouges tem inicialmente uma grande amizade com Le Gris, a quem salvou a vida na frente de batalha, mas a relação da dupla vai se deteriorando com o tempo, principalmente pela relação muito próxima do último com D’Alençon. Para completar, após alguns anos, Margueritte fará a Le Gris uma grave acusação: de estuprá-la na ausência do marido, novamente participando de uma guerra, dando o motivo para Carrouges propor um duelo para resolver a questão.

O segundo capítulo mostra o lado da história de Le Gris, ex-sacerdote que tem ascensão meteórica como amigo e cobrador de tributos de D’Alençon, com o qual também tem afinidades pela libertinagem. Le Gris vê despertar uma paixão pela bela Margueritte que, assim como ele, tem formação letrada, ao contrário do analfabeto Carrouges. Por fim, a visão de Margueritte também é apresentada, mostrando sua real relação com os duelistas.  Nesse cenário, vale destacar a ótima atuação do trio de atores principais.

Depois de muito tempo, Affleck e Damon retomam a parceria vitoriosa do Oscar recebido por Gênio Indomável (1997) e assinam o roteiro ao lado de Nicole Holofcener (indicada ao Oscar pelo roteiro de Poderia me Perdoar?). O texto dividido em três partes se torna repetitivo em certos momentos, mas reflete bem o cenário machista e patriarcal do período retratado, mostrando a violência e o sofrimento a que eram expostas as mulheres – a realidade enfrentada por Margueritte não se difere em muitos pontos do que se constata na sociedade atual, mostrando que pouco se evoluiu em tantos séculos, e este é um ponto a se destacar na produção.

Ridley – que estreou em longas coincidentemente com outra história de embate em Os Duelistas (1977) – comanda com vigor as boas sequências de batalhas sangrentas, assim como as intrigas de bastidores também essenciais para a história. Estas tomam boa parte da trama, tornando o longo filme (2h30) um pouco arrastado. Mas é um belo exemplo do tradicional cinemão, que por muitos anos dominou as telas e que faz falta no mercado atual, repleto de produções sem muita profundidade. Cotação: Bom.

Trailer de O Último Duelo:

 

Sobre romance, arte e refugiados

Um homem sírio, refugiado no Líbano, conhece um famoso artista plástico e aceita uma inusitada proposta que irá permitir sua fuga para a Europa: permitir que o gênio das artes faça uma provocativa tatuagem em suas costas. A partir dessa premissa, inspirada em um fato real – em 2006, o suíço Tim Steiner realmente aceitou vender suas costas para que o artista belga Wim Delvoye fizesse delas uma tela viva –, a diretora tunisiana Kaouther Ben Hania criou o filme O Homem que Vendeu sua Pele, que está sendo lançado esta semana no Cine Passeio.

A produção representou a Tunísia no Oscar deste ano, ganhando lugar entre as cinco finalistas na categoria melhor filme internacional deste ano – perdeu a estatueta para o dinamarquês Druk – Mais uma Rodada, de Thomas Vinterberg –, recebendo também o prêmio de melhor ator para o protagonista Yahya Mahayni, no Festival de Veneza 2020.

O ator sírio vive Sam Ali, apaixonado pela bela Abeer (Dea Liane). Ao pedi-la em casamento em uma viagem de trem, ele é filmado se referindo sem pensar à revolução no país em guerra civil e acaba preso. Sam foge e se refugia em Beirute, capital do vizinho Líbano.

Após um ano, sua paixão acaba se casando com um diplomata sírio e vai morar na Bélgica. E é por causa dela que Sam aceita a proposta do artista Jeffrey Godefroi (Koen De Bouw) e de sua agente Soraya Waldi (Monica Bellucci, de Irreversível), recebendo uma tatuagem em suas costas do Visa Schengen, referente ao visto que permite que uma pessoa entre nos países da Comunidade Europeia. O sírio receberá dinheiro e irá viver em Bruxelas, capital belga, para encontrar sua amada, enquanto também será exposto em uma galeria de arte.

Assim como o filme sueco The Square – A Arte da Discórdia, de Ruben Östlund, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2017 e também indicado ao Oscar de filme internacional (quando a categoria ainda se chamava filme estrangeiro), O Homem Que Vendeu sua Pele também critica e satiriza fortemente o mundo e o mercado das artes. Em certos momentos da história, Sam é tratado como mera mercadoria, sendo “adquirido” por um colecionador ou arrematado em um leilão.

A discussão sobre a arte acaba se sobrepondo no trabalho da diretora Hania, que se esmera nas cenas em galerias e nas que retratam obra tatuada ou outros trabalhos artísticos. A história romântica de Sam e Abeer também tem seu foco, o que deixa a importante questão dos refugiados, do tratamento que recebem ao redor do mundo, um tanto escanteada e pouco valorizada. O final exagerado, praticamente inverossímil, também é um ponto negativo.

Mas são pequenas falhas da cineasta por querer abraçar diversos temas em uma só história, que não tiram o valor do filme como uma bela obra provocativa, que levanta questionamentos e leva o espectador a muitas reflexões. Cotação: Bom.

Trailer de O Homem Que Vendeu sua Pele:

 

Mama Weed

Principal estrela do cinema francês há muitos anos, Isabelle Huppert (indicada ao Oscar por Elle), estrela a comédia leve A Dona do Barato, do diretor Jean-Paul Salomé, filme que também chega à programação do Cine Passeio. A atriz vive Patience, que trabalha para a polícia como tradutora da língua árabe, que herdou de seus pais marroquinos.

Ela acompanha uma investigação de traficantes que estão trazendo uma grande quantidade de drogas para Paris. Na escuta da comunicação de um dos suspeitos árabes, Patience identifica que ele é filho da enfermeira que cuida muito bem de sua mãe em uma casa de repouso. A tradutora decide interferir na ação policial e, após algumas artimanhas, se vê com todo o carregamento de drogas, o qual decide vender para pagar as muitas dívidas que possui – com o tratamento da mãe, com seu apartamento, na ajuda para as duas filhas que criou sozinha, após a morte precoce do marido.

A graça da produção está na forma como Patience engana a todos – ela namora o chefe de polícia – e negocia seu produto com pequenos traficantes atrapalhados, o que a leva a ser conhecida pela polícia local como Mama Weed (mamãe erva, em tradução livre). As situações do roteiro – baseado no livro La Daronne, da escritora Hannelore Cayre, não lançado no Brasil – são pouco verossímeis e o filme só chama mesmo a atenção pelo trabalho de Huppert, que destaca mais uma vez seu tradicional brilho nas telas. Cotação: Regular.

Trailer de A Dona do Barato:

 

Outras estreias

Marco do cinema de terror, a franquia Halloween foi retomada em 2018 com uma produção que teve boa recepção de público e crítica. Como sempre acontece em Hollywood, a sequência era inevitável e a história renovada ganha um segundo capítulo em Halloween Kills – O Terror Continua.

Após os acontecimentos do filme anterior do diretor David Gordon Green, que novamente comanda a produção, Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) pensa que conseguiu eliminar o assassino Michael Myers mas, como sempre, ele retorna ainda mais violento.

Trailer de Halloween Kills – O Terror Continua:

A comédia nacional Amarração do Amor, da diretora Caroline Fioratti (Meus 15 Anos), destaca os problemas de um casamento entre uma jovem judia e um rapaz filho de mãe e pai de santo de Umbanda. Lucas (Bruno Suzano) e Bebel (Samya Pascotto) tentam contentar os parentes, que querem realizar a cerimônia dentro de suas respectivas religiões, mas não conseguem encontrar um meio termo, o que gera muitas confusões. O nome mais conhecido do elenco é Cacau Protásio, da sitcom e franquia de filmes Vai Que Cola.

Trailer de Amarração do Amor:

O drama japonês Seus Olhos Dizem, de Takahiro Miki, traz o romance entre os personagens Rui e Akari, ele um ex-lutador que abandonou a vida de cobrador da máfia, e ela uma jovem que perdeu a visão após um acidente.

O encontro com a moça desperta Rui novamente para o mundo, após um período de depressão, mas ele tem segredos que podem tornar impossível o envolvimento com Akari. O fenômeno musical BTS canta a música-tema da produção, que só estreia no Cinépolis Batel.

Trailer de Seus Olhos Dizem:

Um dos principais acontecimentos para o mundo católico, a história das crianças da cidade de Fátima, em Portugal, ganha mais uma versão para o cinema em Fátima – A História de um Milagre, do diretor Marco Pontecorvo. Em 1917, os pastorinhos Lucia, Jacinta e Francisco tiveram visões de Nossa Senhora, que lhes revelou segredos. Os primos Jacinta e Francisco morreram ainda durante a pandemia de Gripe Espanhola, em 1918, e Lucia seguiu como madre até sua morte, em 2005.

A produção foi filmada em terras lusas mas é falada em inglês, com elenco de atores conhecidos como Harvey Keitel, Joaquim de Almeida e a brasileira Sônia Braga, que vive a irmã Lucia.

Trailer de Fátima – A História de um Milagre:

 

Sonho americano

O Cine Passeio retomas sessões de pré-estreia neste fim de semana com a apresentação do longa-metragem mexicano Los Lobos, do diretor Samuel Kishi. O filme foi vencedor da Mostra Generation do Festival de Berlim 2020 e recebeu o prêmio da crítica do festival curitibano Olhar de Cinema, também no ano passado.

A história semiautobiográfica fala de uma mãe e seus dois filhos, que cruzam a fronteira do México para os Estado Unidos em busca de uma vida melhor. Enquanto esperam a matriarca chegar do trabalho, as crianças criam um mundo de fantasia e sonham em conhecer a Disneylândia. As sessões acontecem no sábado (16) e domingo (17), sempre às 11 horas.

O premiado filme mexicano Los Lobos tem pré-estreia no Cine Passeio.

Crédito da foto: Divulgação

 

Crédito da foto principal: Divulgação/20th Century Fox

 

Rudney Flores é jornalista formado pela PUCPR, assessor de imprensa e crítico de cinema, com resenhas publicadas nos jornais Gazeta do Povo e Jornal do Brasil.

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