Sobre cervejas de guarda

 em Gastronomia

Que alguns vinhos ficam melhores quando envelhecidos não é segredo. O que nem todo mundo sabe, porém, é que há cervejas que também evoluem bastante com o tempo. Mas como identificar essas bebidas nas gôndolas e geladeiras, diferenciando-as daquelas que são mais gostosas quando frescas? Qual o tempo necessário para que cada uma atinja o seu melhor momento? Como armazená-las? Essas respostas não são simples e nem curtas. Porém, claro, há algumas regras básicas que facilitam os processos de escolha que envolvem esse tipo de cerveja.

Nem toda cerveja é “guardável”. As mais leves, com teor alcoólico não tão alto (até uns 5,5%/6% de álcool), e não envelhecidas em barricas, devem ser consumidas, idealmente, o mais próximo possível da data de envase, e devem ser evitadas após vencidas, pois podem adquirir sabores não muito desejáveis. O mesmo vale para as mais lupuladas, como as IPA’s, Double IPA’s e Hoppy Lagers, que perdem os aromas do lúpulo com a passagem do tempo. Por isso, quando escolher beber cervejas com esses perfis, opte pelas latas que foram envasadas há menos tempo. Isso vai ajudar a garantir o frescor do produto.

Quando falamos de cervejas mais alcoólicas e não lupuladas, como as Imperial Stouts, por exemplo, é importante identificar se elas levam adjuntos. Se sim, é melhor consumi-las o quanto antes.

Mas quais são as cervejas de guarda, aquelas que são ideais para serem esquecidas na adega? Segundo o sócio e mestre cervejeiro da cervejaria paulista Dádiva, Victor Marinho, via de regra elas são cervejas mais leves ou mais alcoólicas que envelheceram ou acidificaram em barricas.

“Durante meses e anos, essas cervejas vão se transformar na garrafa. Essa transformação tem vários caminhos possíveis: elas podem ficar mais ou menos ácidas, mais vínicas, o adjunto (fruta, condimento) pode ficar mais aparente ou perder a sua potência. Leveduras selvagens (as Brettanomyces) podem continuar trabalhando e transformar completamente o líquido. A cerveja pode perder a carbonatação, ter seu amargor reduzido, ou acentuar nuances adocicadas, como passas, mel e até toffee. A cerveja também pode oxidar, e, diferentemente do que esperamos das mais frescas, isso pode ser muito bom e interessante!”, afirma.

No caso das cervejas mais alcoólicas e não lupuladas, como as Imperial Stouts e os exemplares sem adjuntos, que costumam envelhecer bem, procure consumir próximo à validade que está estampada na lata ou garrafa, e provavelmente irá degustar uma cerveja que evoluiu e estará diferente da sua versão mais jovem.

Para armazenar as cervejas de guarda de forma adequada, o recomendado é mantê-las em pé, ao abrigo da luz e, se possível, climatizadas com uma temperatura entre 12 e 18ºC. Elas podem ser armazenadas por três, cinco ou dez anos. Em alguns casos, inclusive, por mais tempo.

A Dádiva é uma produtora paulista, instalada em Várzea Paulista, escolhida por dois anos consecutivos (2019/20) como a melhor cervejaria do Brasil pelo Rate Beer. Ao longo de sua trajetória de oito anos já produziu diversos rótulos com o intuito de proporcionar aos cervejeiros essa gostosa brincadeira: a de esquecer a cerveja na adega e experimentá-la quando atingir seu auge.

Todos os anos, por exemplo, em celebração ao aniversário da marca, a cervejaria costuma criar esse tipo de produto. A última produzida foi em 2021, em celebração aos seus sete anos. A Sept é uma Belgian Strong Golden Ale envelhecida em barricas de carvalho francês apresentada em duas versões: uma que recebeu 20% do seu volume em vinho Claret Cabernet Sauvignon, a outra versão ganhou 40% do seu volume em vinho Claret Cabernet Sauvignon.

Outro ícone “guardável” da cervejaria paulista é a série Brewer’s Cut, uma linha de cervejas que traz bebidas envelhecidas e extremamente complexas nas releituras do mestre cervejeiro Victor Marinho. A primeira lançada, a #1, era uma American Sour que ficou por dez meses acidificando em barris da premiada Dark Sour. A oitava, a #8, foi uma Barrel Aged Mixed Fermentation Sour, cerveja de fermentação mista, com acidez mediana e equilibrada com a fruta strawberry.

E mais duas foram lançadas no mês de maio, completando, portanto, a icônica linha de dez rótulos. A #9 e #10 da linha Brewer’s Cut são de fermentação mista, possuem apenas 5,2% de teor alcoólico e têm a mesma base. A Brewer’s Cut #9 tem adição de mirtilo. Nela, os aromas de barrica estão em equilíbrio com as notas da fruta. De corpo médio a baixo, ela apresenta um leve acético. Acompanha muito bem panna cota, sorvete de baunilha e queijos suaves.

A Brewer’s Cut #10 é a última da linha. Ao invés do mirtilo, nela foi adicionada a framboesa. É uma cerveja com bastante acidez lática e que traz com intensidade os sabores e aromas da fruta. Ela também harmoniza com panna cota e sorvete de baunilha. O queijo aqui é igualmente uma boa opção de combinação, mas com a #10 prefira os mofados.

Para conhecê-las melhor, basta acompanhar as redes sociais da marca no Instagram (www.instagram.com/cervejariadadiva/) e no Facebook (www.facebook.com/cervejariadadiva/). Os rótulos podem ser encontrados nos principais bares e empórios especializados, além do e-commerce da Dádiva (https://cervejariadadiva.com.br/).

Para quem ainda não tem o costume de guardar as cervejas, Victor indica comprar dois rótulos, um para provar enquanto a cerveja ainda está fresca (e, claro, lembrar de anotar o sensorial) e outro para quando você decidir abrir após o tempo de guarda. Assim, será possível fazer essa comparação e descobrir os efeitos do tempo sobre a cerveja.

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