Terapia do avesso – COLUNA RECEITA DE ESCRITA, por Cláudia Moreira

 em Cláudia Moreira, Colunistas, Cultura

Nunca tinha ido a uma terapeuta. Sei lá, acho que era medo de me encontrar. Só pode! Sentei sem jeito em frente a ela e recebi o primeiro e certeiro tiro no peito: me fale sobre você. Fiquei em silêncio sem saber o que dizer. Quem era eu de verdade? Sem reação por algum tempo, busquei a minha essência. As palavras, que antes corriam soltas pela boca, calaram. Os pensamentos se embaralhavam e se debatiam na ânsia por uma resposta à altura, digna, forte. Sorri um sorriso amarelo, apenas.

Na tentativa de me livrar logo daquela coisa que me incomodava, comecei a falar mal de mim mesma: sou esquisita, briguenta, esquentada, não consigo me relacionar direito com as pessoas, aliás, detesto gente, meus relacionamentos não perduram e, assim, desfilei um rosário de palavras negativas. Até eu me senti mal com tanto adjetivo pejorativo. Acabei triunfante. Afinal, conseguira responder àquela questão tão simplória. Já posso ir?

A terapeuta ficou me olhando como se eu não tivesse finalizado a definição de quem era eu. Eu me sentia um bicho acuado. Sem saber o que fazer, mexia com as mãos, colocava e tirava os óculos, olhava para a sala, mas nem pensava em fitar a mulher que me chupava a alma sem dó e sem piedade. Ela buscava o meu avesso e eu nem sabia que o escondia até mesmo de mim.

A questão era simples demais: quem é você? Na escola, eu era nota dez. No trabalho, cumpria meus afazeres. Em casa, era boa filha e boa mãe. E pra mim, eu era gente boa? Mergulhei em uma busca louca de mim para além da minha pele. Nem preciso dizer que chorei lágrimas de desespero, de dor, talvez. Culpei a pobre da terapeuta, aliás, não quis mais ir lá, e afundei em um oceano de procura pela resposta.

Anos se passaram. As ondas do oceano de dúvidas cobriam aquele incômodo não resolvido. Mas com as poucas chuvas daqueles tempos, o mar recuou e vi na areia branca um espelho poderoso que, como as moiras, revelava o fio da vida. Era inverno e eu andava na praia, sozinha. Com a morte rondando por perto, consegui ver a beleza que habitava em mim. A venda foi retirada e o essencial ficou à mostra. Eu agora enxergava o meu avesso, encarava o medo que residia em mim de ser eu mesma e compreendia que eu era a melhor pessoa que eu poderia ser. A vontade era de voltar à terapeuta para responder àquela pergunta, mas nem sempre é possível voltar. Continuei minha caminhada, segura de saber quem sou.

 

Ilustração: @igor.baldez

 

Cláudia Moreira é mestranda em Escrita Criativa (Uniandrade/PR), formada em Letras e Jornalismo (Uniceub- DF), com especializações em Revisão e Produção Textual (FAE-PR), Desenvolvimento Sustentável (UNB-DF) e Master em Jornalismo (IICS-SP). Tem vários livros publicados, entre eles, Receita de Escrita. É sócia-proprietária da Editora Ponto Vital (PR) e professora de Escrita do Solar do Rosário em Curitiba.

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